HOME|TORRES TV |DOWNLOADS | ENQUETES | GALERIAS | CONTATO  

 
 

torres administração municipal

 
  Voltar

Voltar

23/07/2011 15h00
COLUNA DO TIMM : 24 DE JULHO, 180 ANOS DA IMIGRAÇÃO ALEMÃ
 



 


Dia 24, 187 anos da imigração alemã.


Paulo Timm – paulotimm@gmail.com – Editor de www.torres-rs.tv


Há 187 anos  39 colonos alemães chegavam, assustados e inseguros, apesar do nome do navio que os transportara do Rio de Janeiro até Porto Alegre – “Protector” – e da penosa viagem transatlântica,   à Feitoria do Linho Cânhamo, no Vale do Rio dos Sinos,  onde hoje é São Leopoldo, dando início à aventura da imigração teuta no Rio Grande do Sul.  Pela importância do fato,  o dia 24 de julho ficou consagrado como “Dia do Colono”, no Brasil (Lei Nº 5.496, 05/09/1968 ). Esta grande marco da imigração alemã , cujos estudos pioneiros se devem a alguns abnegados como Telmo Lauro Muller, Diretor do Museu Visconde de São Leopoldo (http://www.museuhistoricosl.com.br/contato.cfm)  e autor de mais de 20 livros sobre a imigração alemã, hoje, vem sendo objeto de pesquisas acadêmicas e grandes simpósios pelo Nucleo de Estudos Teuto Brasileiros da UNISINOS,  coordenado por Martin Bage (martin@bage.unisinos.br)  A grande importância desta data não está no fato em si da chegada de colonos livres em solo brasileiro, mas  de que aí se iniciava o fim da escravidão – www.marxistas.com , mudando completamente o perfil da nossa sociedade: A matriz colonial, tão assinalada por Caio Prado Jr. como nosso estigma histórico – LATIFÚNDIO + TRABALHO FORÇADO+ MONOCULTURA DE EXPORTAÇÃO – , começa a ceder lugar à PEQUENA PROPRIEDADE FAMILIAR + TRABALHO LIVRE + AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA, caracterizando o MODELO PRIMÁRIO EXPORTADOR ‘INTERNO’ do desenvolvimento riograndense, na feliz denominação que fez Paulo Renato Souza em sua Tese de Mestrado na ESCOLATINA, Chile, que o faria o suporte da oferta de alimentos para  centro do país até recentemente.


Conforme o historiador Martin Dreher, do Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros da Universidade do Vale dos Sinos – Unisinos, de São Leopoldo, a maior contribuição do imigrante alemão no desenvolvimento da economia brasileira está ligada ao surgimento de um novo modelo agrícola num Brasil que era dominado pelo latifúndio, pela escravidão e pela monocultura. Trata-se da pequena propriedade agrícola, na qual a família agricultora livre produz para o consumo próprio e abastece, com o excedente, o mercado interno. Um segundo aspecto que deve ser sublinhado, segundo Dreher, é o fato de cerca de 60% dos imigrantes terem sido artesãos, ao longo do século 19. Eram assim os primeiros profissionais a ingressar no país, pois até então o regime português vedava sua entrada na colônia.


(Citado por Angelita Kasper in http://angelitakasper.blogspot.com/ - 15 outubro 2009)



 Depois desta primeira leva de alemães para o Rio Grande do Sul, para onde se dirigiram, obliterando um dos principais objetivos de seu recrutamento, a  formação de uma Guarda Especial para o recém coroado Imperador D.Pedro I ( vulnerável que ficara diante da nova pátria, sem exército regular e forças confiáveis, depois da expulsão das tropas português, o que levaria, aliás, algum tempo), mais de 50 milhões de europeus pobres seriam expatriados, entre 1824 e 1924.  A saga está contata em várias épicos da literatura e do cinema, merecendo destaque o já quase esquecido “América, América”, do diretor Elia Kazan. No Brasil, tivemos a oportunidade de perceber melhor o processo através de algumas novelas e séries, algumas memoráveis da Rede Globo, tanto sobre a imigração italiana, como japonesa. Falta-nos, entretanto, uma grande obra de ficção, de alcance nacional sobre a saga alemã no Brasil, sem desdouro às já produzidos, das quais muito me agradam os dois livros de Ruy Nedel (“Te arracanca alemão batat”a e “Esta terra teve dono” , ambas da Ed.Tchê, Porto Alegre ), capaz de motivar os produtores do áudio-visual à sua transformação em filme de forma a torná-la mais familiar aos brasileiros.


Os nomes dos primeiros colonos alemães de 1824  ficaram registrados nos Livros da época e permanecerão inscritos na memória coletiva de seus descendentes que acabaram se integrando na sociedade riograndense:


“A primeira leva de imigrantes era formada pelas seguintes pessoas, num total de 39: Miguel Kräme e esposa Margarida (católicos). João Frederico Höpper, esposa Anna Margarida, filhos Anna Maria, Christóvão, João Ludovico (evangélicos). Paulo Hammel, esposa Maria Teresa, filhos Carlos e Antônio (católicos). João Henrique Otto Pfingsten, esposa Catarina, filhos Carolina, Dorothea, Frederico, Catarina, Maria (evangélicos). João Christiano Rust (Bust?), esposa Joana Margarida, filha Joana e Luiza (evangélicos). Henrique Timm, esposa Margarida Ana, filhos João Henrique, Ana Catarina, Catarina Margarida, Jorge e Jacob (evangélicos). Augusto Timm, esposa Catarina, filhos Christóvão e João (evangélicos). Gaspar Henrique Bentzen, cuja esposa morreu na viagem, um parente, Frederico Gross; o filho João Henrique (evangélicos). João Henrique Jaacks, esposa Catarina, filhos João Henrique e João Joaquim (evangélicos). Essas 39 pessoas, seis católicos e 33 evangélicos, são as fundadoras de São Leopoldo, nome e lugar então inexistentes, porque tudo se resumia à Feitoria do Linho-Cânhamo.”


                                      (Telmo Lauro Müller- UM MARCO NA HISTÓRIA GAÚCHA)


 


Eu tenho a honra de ser o sexto na descendência de Heinrich Timm e ainda sei o nome de meus ancestrais, graças, aliás, ao paciencioso trabalho genealógico sobre a família desenvolvido por minha irmã Maria de Lourdes (anossafamilia.com/source.php?sid=S23&ged...ged -): Meu pai, Odacyr e meu avô Álvaro, com o qual convivi até sua morte, quando eu tinha 10 anos, em 1954.  E os “tatás” Andréa, que escapou da colônia para lutar na Guerra contra Rosas, no Uruguai, acabando em Santa Maria-RS, onde constitui família , e seu respectivo pai, André, este filho do pioneiro, cujos tataranetos estão ainda no mesmo lugar onde lá chegaram,  hoje S. Leopoldo, vestindo-se em ocasiões simbólicas com o mesmo traje, falando o alemão antigo. Meus primos distantes... Digo-os como homenagem a todos aqueles bravos e sofridos homens contratados por um agente do Governo brasileiro,  o major Georg Von Schafer,  que acompanhara sua nobre Princesa austríaca D. Leopoldina, filha do Imperador Francisco I , da Áustria,  quando esta se casou , em 1817, com o futuro Dom Pedro I, estreitando laços entre este país e Portugal, e Brasil, depois de Independência.


Fala-se em imigração alemã mas, na verdade, àquela época não havia uma Alemanha unificada, o que foi acontecer, pela mãos de Bismarck, no ano de 1871. Naquela região pululavam diversos reinos e ducados, ressaltando o da Prússia, herdeiro do Sacro Império Germânico. A vizinha Áustria, porém, de origem também germânica, era o centro do mundo, depois de ter derrotado Napoleão e congelado seu internacionalismo militante de boca de canhão. Ela comandara no continente europeu, tendo a Inglaterra, `a distância como  aliada, a realização do Congresso de Viena, em 1815 - http://pt.wikipedia.org/wiki/Congresso_de_Viena -  e, desde essa cidade comandava a reconstrução conservadora das áreas devastadas pelas guerras. Não permitia, sob hipótese alguma, o recrutamento de soldados, com medo de uma recidiva belicista, mal desconfiando que, a partir daquele momento, o perigo não seria mais externo, mas interno. Em 1848 várias cidades européias seriam varridas por revoluções sangrentas. A proletarização das cidades com o advento da era industrial e  a inflamação do discurso iluminista com o amadurecimento dos ideais socialistas que  tomaria conta do cenário mundial estava num curso inarredável. 


Era nestas cidades, Hamburgo, importante porto dentre elas,  coalhadas de soldados desmobilizados, de camponeses arrancados de suas casos, de desempregados famintos que os panfletos brasileiros  oferecendo um paraíso nos trópicos ecoava. O Governo oferecia passagem, terras e algum apoio financeiro. Uma verdadeira loteria que escondia as dificuldades da longa viagem (http://www.eeh2008.anpuh-rs.org.br/resources/content/anais/1212273696_ARQUIVO_ArtigoANPUH.pdf ), na qual muitos morriam, e do assentamento numa região desprovida de qualquer vestígio de civilização. 


Não obstante, este pequeno grupo, ao qual se seguiram outros, para outras partes do mundo, drenando a região alemã de cerca de 250 mil homens, venceu os obstáculos e se impôs como uma nova realidade no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.  A Alemanha de Hitler até sonhou em fazer destes núcleos um ponto de apoio do III Reich. Teve bastante receptividade, levando a que Getúlio Vargas proibisse o funcionamento das Escolas alemãs e circulação de jornais entre os colonos. Muitos deles viram-se, em razão da hostilidade que se levantou contra eles por parte dos brasileiros, depois do início dos bombardeamentos de navios comerciais na nossa costa e da entrada do país na Guerra, a abandonarem definitivamente a língua “materna” e o protestantismo.


Mas foi de tal ordem a importância da imigração alemã, seguida mais tarde da vinda de italianos, poloneses e outros que se pode dizer que a história dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina  se divide em dois períodos, antes e depois de 1824. Aleluia!


 


 


                    UM MARCO NA HISTÓRIA GAÚCHA


 No próximo dia 25 de julho  (2004)completam-se 180 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães ao Rio Grande do Sul


 Assim como a História Geral é dividida em "Antes de Cristo" (a.C.) e "Depois de Cristo" (d.C.), fatos marcantes da vida de povos ou países remetem a subdivisões de sua história.


 Esta explicação introduz texto especial do professor Telmo Lauro Müller sobre a colonização alemã em solo gaúcho. O dia é 25 de julho; o ano, 1824. A partir desta data, o Rio Grande do Sul mudou sob a influência dos imigrantes alemães e de seus descendentes


 Telmo Lauro Müller - Professor e diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo 


 


Uma data importante, que pode servir de divisor para a história do Rio Grande do Sul, é a chegada dos primeiros imigrantes alemães à então Província de São Pedro do Rio Grande, no dia 25 de julho de 1824. Isso não significa que essa data esteja indicando que "antes" foi melhor ou pior; que "depois" foi melhor ou pior. A data revela mudanças acentuadas que alteraram a seqüência dos fatos. Assim, "antes" temos a civilização portuguesa, por muitos chamada de açoriana, tendo o gado e toda gama de atividades decorrentes como centro de tudo. É o gaúcho, dono da campanha, região de onde nunca saiu porque sua vida era o gado, e gado é criado no campo. "Depois" a civilização alemã marca presença e irá caracterizar boa parte do Rio Grande para sempre. Este texto pretende contar um pouco da História rio-grandense "depois" de  1824, a propósito dos 180 anos da imigração alemã, festejados em 2004.


Quando se fala em imigração alemã há 180 anos, é bom pensar como eram as coisas naquele tempo. O Brasil tinha meia dúzia de centros notórios, como Rio de Janeiro, a capital do recém-criado Império Brasileiro; Salvador, antiga capital; Recife, São Paulo e núcleos mais provincianos como Porto Alegre. O Brasil era movido pelos escravos. De seu suor, sangue e lágrimas vivia a jovem nação. Açúcar, gado, cacau, pedras preciosas, tudo nascia de suas mãos. E como eles fossem em maior número do que os homens livres, é provável que esse fato levasse o Governo a pensar em imigrantes de outra categoria. O Rio Grande de São Pedro tinha Porto Alegre como capital. Ainda marcavam presença Viamão, Rio Pardo, Pelotas e Rio Grande, para citar apenas alguns núcleos. O gado constituía a grande riqueza, indelevelmente ligada à História do extremo sul. Aqui também o braço servil era uma realidade. 


Falar na Alemanha da época requer registrar que ela não existia como unidade nacional. Havia reinados, principados, ducados, independentes entre si. O que identificava a todos, e daí falarmos em Alemanha, era a língua. Na Idade Média, predominavam os dialetos. Ainda hoje a Alemanha é rica em dialetos. Com Lutero, ao traduzir a Bíblia para que os alemães pudessem lê-la, criou-se a língua alemã ou, simplesmente, o alemão. Ao uniformizar o idioma, havia um elo comum entre todos os departamentos políticos vindos da Idade Média. Logo, ao falarmos em imigrantes da Alemanha, antes de 1871, ano da unificação formalizada por Bismarck, referimo-nos às pessoas de fala alemã. Os passaportes da época registram a origem das pessoas como sendo da Prússia, de Schleswig-Holstein, Renânia, Hesse ou Pomerânia. Como todas falassem a mesma língua, a História só registra "alemães". Mas isso não tira o mérito da imigração entre nós.


Razões da emigração - Agora podemos perguntar: o que leva uma pessoa a deixar seu lugar de nascimento? Ora, com nossos imigrantes alemães houve, como em qualquer ser humano, o desejo natural de progredir, visualização de novos horizontes em razão de situações existentes em sua terra natal.


Na família alemã vamos encontrar o "Erbrecht" (morgadio), direito hereditário do filho mais velho. Como não houvesse mão-de-obra à disposição, eram comuns famílias com oito, dez ou mais filhos. A propaganda brasileira então feita na Alemanha deve ter produzido os efeitos desejados, já que muitos viam a grande oportunidade de terem suas terras próprias. E muita terra! Enfim, sessenta ou setenta hectares era muita terra. Não seria hora da realização de utopia de cada um? Outrossim, é preciso considerar que, ao tempo do início da imigração, a Alemanha saíra das Guerras Napoleônicas, que causaram uma devastação fácil de imaginar: lavouras destruídas seguidamente, moradias em chamas, mortes, dizimação da juventude masculina, a soldadesca deixando seus rastros junto ao elemento feminino... Quanto aos renanos, o maior número de imigrantes, suas terras sempre foram palco de lutas travadas ao longo do rio Reno, fato que pode explicar sua inquietação. Mais. A emigração começou em 1824, setenta anos depois da invenção da máquina a vapor, na Inglaterra, cujos efeitos técnicos começavam a se fazer sentir na Europa continental. A máquina dispensa mão-de-obra e a previsão de desemprego para tanta gente deve ter exercido sua influência sobre a emigração. Depois veremos que os artesãos, começando a perder suas oportunidades na Alemanha, foram aqui muito importantes, porque lançaram as bases da industrialização. Além desses fatores gerais, em cada região de onde provieram imigrantes com destaque para a Renânia, Vestfália e Pomerânia, havia fatores locais a influir na saída de seus filhos.


 


Por que os alemães foram escolhidos para colonizar


 


Nos meios políticos e governamentais certamente o Brasil era conhecido porque a filha de Francisco II, último Imperador do Sacro Império Romano de Nação Alemã, ao mesmo tempo, Francisco I, primeiro Imperador da Áustria, da Casa dos Habsburgos, era casada com o jovem Imperador Pedro I, da Casa de Bragança. O nome dessa mulher ressoou e ainda ressoa no Brasil, mormente no Sul, em virtude da imigração alemã. A arquiduquesa Leopoldina Carolina Josefa contraiu matrimônio com D. Pedro, apenas príncipe, no dia 13 de maio de 1817, por procuração, em Viena.


Leopoldina conquistou os brasileiros, que a consideravam uma "mãe", como registram os livros. É fácil imaginar que o fato de uma princesa germânica ser a Imperatriz do Brasil tenha dado ênfase à imigração. Leopoldina sabia que sua antepassada, Imperatriz Maria Teresia, havia colonizado terras ao longo do Danúbio, para impedir o avanço dos turcos em direção ao centro da Europa, com ameaça ao território austríaco. O Brasil vivia uma situação parecida no Sul. Ali constantemente havia invasões e atividades bélicas para manter as fronteiras brasileiras. A colonização mais intensa daquele pedaço de terra poderia ajudar a manter o equilíbrio geopolítico. Na verdade, os açorianos, então "donos" do Rio Grande, eram, também, os "eternos vigilantes". Afirmava-se que dormiam com um olho só; o outro estava sempre aberto para ver o inimigo chegar.


É claro que não viriam portugueses, de quem o Brasil acabara de se emancipar. Espanhóis, nem pensar, porque eram os inimigos naquela região. Franceses também não, porque um dia haviam invadido o Rio de Janeiro, fundando a "França Antártica". Ingleses também não, porque igualmente haviam tentado instalar-se no Brasil. Holandeses fora de cogitação, pois estiveram 24 anos no Nordeste. Alemães. Leopoldina era alemã. A Prússia, que depois integraria a Alemanha, tinha um exército reconhecido e admirado por D. Pedro I, cujas tendências militaristas eram conhecidas. O Brasil precisava de soldados, já que os portugueses, com a Independência, haviam voltado para Portugal. Quem defenderia o Brasil? D. Pedro I inte-ressou-se por mercenários alemães e, provavelmente, para não ser notado esse "movimento militarista", passou a contratar também colonos que ocupariam as terras sulinas.


Para proceder adequadamente, foi enviado à Alemanha Jorge Antônio von Schäffer, preposto do Império. A missão de Schäffer, embora exitosa, teve muitos percalços. A Europa estava impedindo que soldados saíssem como mercenários. Quem desejasse emigrar, deveria renunciar à nacionalidade e apresentar provas de que o país destinatário lhe daria nova nacionalidade. Os países europeus queriam prevenir-se contra futuras responsabilidades.


O governo brasileiro oferecia: passagem paga; concessão de cidadania; concessão de lotes de terra livres e desimpedidos; suprimento com primeiras necessidades; materiais de trabalho e animais; isenção de impostos por alguns anos; liberdade de culto.


No Brasil há uma expressão popular que diz: "Quando a esmola é demais, o pobre desconfia". É muito possível que alguém considerasse a oferta grande demais. Isso iria confirmar-se mais tarde, porque chegar ao Rio Grande, mais especificamente a São Leopoldo, e receber um lote de terras a 30 ou 40 quilômetros distantes da sede, sem estradas, sem escolas, na mata virgem, deve ter provocado muitas lágrimas. Com relação à liberdade de culto oferecida - o Governo deveria prever que entre os imigrantes haveria luteranos -, era inconstitucional, porque pela Constituição Imperial de 1824 a religião católica era oficial. Outros credos poderiam ser praticados, em caráter particular, em casas sem aparência exterior de templo.


 


Feitoria desativada abrigou os primeiros imigrantes


 


Antes de falar nos primeiros imigrantes alemães, torna-se necessário dizer alguma coisa sobre a Real Feitoria do Linho-Cânhamo.


Feitoria era um estabelecimento do Governo. Linho-cânhamo é uma planta herbácea de pequeno porte, da qual são extraídas fibras utilizadas na confecção de cordas e de velas para barcos. Muito provavelmente Portugal possuía plantações que forneciam aquela matéria-prima para sua frota de veleiros pelo mundo a fora. Aqui, na Província de São Pedro do Rio Grande, fundou-se uma Feitoria em Canguçu, na região de Pelotas, bem no sul da Província. Como não deu resultados, foi fechada e transferida para o Faxinal do Courita, à margem esquerda do rio dos Sinos, onde sua instalação se deu no dia 14 de outubro de 1788. Como qualquer outra propriedade agrícola da época, lá estava a casa-grande, de pedra, centro das atividades e moradia do feitor ou outra autoridade da Feitoria. Nas senzalas moravam os escravos. Havia ainda os galpões para animais e depósitos diversos. A produção era transportada para Porto Alegre pelo rio dos Sinos, primeira via econômica da região do Vale. Mas, provavelmente por ser movida a braço escravo, a Feitoria não deu o resultado esperado, sendo desativada no dia 31 de março de 1824, portanto 36 anos após sua fundação. Nessa mesma data, o Presidente da Província recebeu comunicação da Corte, dizendo que em terras da Feitoria seria iniciada uma colônia com imigrantes alemães.


Primeira leva - Os imigrantes contratados por conta do Governo brasileiro por Jorge Antônio von Schäffer na Alemanha e componentes da primeira leva, depois de passarem pelo Rio de Janeiro, chegaram a Porto Alegre em 18 de julho de 1824. Seguindo instruções recebidas, o Presidente da Província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, encaminhou os imigrantes para a Feitoria desativada, à margem esquerda do Sinos.


É fácil imaginar a viagem Sinos acima. Uma vegetação luxuriante, com árvores enormes e flores em profusão; muitos animais povoando as margens: jacarés, capivaras, ratões do banhado, fuinhas e, sem dúvida, alguma cobra deitada preguiçosamente sobre um tronco caído, ao vivo e em cores: garças, biguás, um mundo de pássaros coloridos. Numa palavra: um encanto! Um mundo novo à espera de quem fizera uma viagem de 12.000 quilômetros em busca de uma nova Pátria. Do rio, carretas de boi levaram os imigrantes até a Feitoria. Era o dia 25 de julho de 1824, um domingo, data da fundação do primeiro núcleo de colonização alemã no Sul do Brasil, que viria a transformar-se na cidade de São Leopoldo.


 


Dos 39 pioneiros, 33 eram evangélicos


 


A primeira leva de imigrantes era formada pelas seguintes pessoas, num total de 39: Miguel Kräme e esposa Margarida (católicos). João Frederico Höpper, esposa Anna Margarida, filhos Anna Maria, Christóvão, João Ludovico (evangélicos). Paulo Hammel, esposa Maria Teresa, filhos Carlos e Antônio (católicos). João Henrique Otto Pfingsten, esposa Catarina, filhos Carolina, Dorothea, Frederico, Catarina, Maria (evangélicos). João Christiano Rust (Bust?), esposa Joana Margarida, filha Joana e Luiza (evangélicos).


Henrique Timm, esposa Margarida Ana, filhos João Henrique, Ana Catarina, Catarina Margarida, Jorge e Jacob (evangélicos). Augusto Timm, esposa Catarina, filhos Christóvão e João (evangélicos). Gaspar Henrique Bentzen, cuja esposa morreu na viagem, um parente, Frederico Gross; o filho João Henrique (evangélicos). João Henrique Jaacks, esposa Catarina, filhos João Henrique e João Joaquim (evangélicos).


Essas 39 pessoas, seis católicos e 33 evangélicos, são as fundadoras de São Leopoldo, nome e lugar então inexistentes, porque tudo se resumia à Feitoria do Linho-Cânhamo.


É fácil imaginar o quadro na Feitoria com a chegada dos alemães.


Um lugar nunca imaginado, gente de língua desconhecida e costumes estranhos. E por que tudo tinha um ar de abandono? Se a isso juntar-se um dia de inverno no Vale do Sinos com frio, cerração e umidade, a chegada deve ter causado impacto. Mas aquele dia ajudou a fazer um novo Rio Grande, razão para dividir-se sua História em "antes" e "depois" de 1824.


 


Núcleo se expande e muda o Rio Grande


 


Com o nome oficial de "Colônia Alemã de São Leopoldo", numa homenagem ao santo padroeiro de Leopoldina, o núcleo inicial, em poucos anos, estendeu-se por todo o vale do Sinos, já com milhares de imigrantes. O grande artífice da "Colônia Alemã" foi o Presidente José Feliciano Fernandes Pinheiro, que recebeu do Império, por ter se destacado, um título honorífico: Visconde de São Leopoldo. 


A vinda dos imigrantes alemães mudou o Rio Grande. Na parte econômica, a produção agrícola em poucos anos floresceu, a ponto de a colônia abastecer a capital, Porto Alegre. Mais: ao lado do trabalho agrícola, os alemães também eram Handwerker, isto é, artesãos. Com seu trabalho (em madeira, ferro, couro, fibras), os artesãos formaram as bases da industrialização no Rio Grande.


Na parte cultural merecem citação muito especial as escolas. Os colonos as criaram para ensinar as crianças a ler, escrever e fazer contas. Por volta de 1938 eram mais de mil escolas coloniais. 


Ainda na parte cultural, os alemães têm um caráter muito associativo, isto é, gostam ou até precisam viver em grupos. A intensa vida em família e os encontros nos locais de lazer deram origem a sociedades centenárias e fizeram surgir grupos de música, de teatro, de canto. Disso decorre a importante contribuição alemã à vida associativa no Rio Grande do Sul. Além disso, um religioso jesuíta, Theodor Amstad, foi o idealizador de um sistema de poupança chamado Raiffeisen, através das Caixas Rurais - raiz do cooperativismo no Estado.


Especial: O recomeço no além-mar


·         Gaúchos convidam alemães a festejos da imigração


·         Eventos marcam o jubileu no Brasil


 


·         Alemães à procura de uma nova pátria no Brasil


·         O alemão lusitano do Sul do Brasil


 


 


Alemanha | 13.04.2004


Como os alemães lançaram raízes no Brasil


1 / 2ahead


 



Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Primeiras casas de imigrantes no Vale do Rio dos Sinos no século 19


Por que o Império brasileiro atraiu alemães? Por que eles aceitaram trocar a Alemanha pelo Brasil? O que enfrentaram em sua nova pátria? Uma entrevista com o professor Lauro Müller.


 


A maior parte dos primeiros imigrantes alemães no Brasil era de camponeses. Mas também vieram muitos artesãos que contribuíram para o início da industrialização no Sul do país. Tanto uns quanto outros procuravam no Brasil condições para progredir que não encontravam mais na Alemanha, explica o historiador Telmo Lauro Müller, autor de mais de 20 livros sobre a colonização alemã no Brasil, que está completando 180 anos em 2004.


Em sua recente viagem à Alemanha, para divulgar as comemorações dos 180 anos da imigração alemã no Brasil, o professor e diretor do Museu Histórico de São Leopoldo (RS) conversou com DW-WORLD.DE.


DW-WORLD.DE: Por que o Império brasileiro escolheu justamente imigrantes alemães para colonizar o Sul do país e, assim, garantir as fronteiras?


Prof. Telmo Müller: Portugueses e seus descendentes já estavam no país e, além do mais, o Brasil declarara sua independência. Imigrantes espanhóis não vinham ao caso porque os espanhóis eram os inimigos no sul, contra os quais se tinha de defender as fronteiras. Os franceses antes atacaram o Rio de Janeiro, tentando fundar ali a França Antártica. Os ingleses também haviam tentado se estabelecer no Brasil, e os holandeses mantiveram o Nordeste ocupado por 24 anos.


Por que não os alemães? A imperatriz Leopoldina era filha do imperador da Áustria, mas era alemã, da dinastia dos Habsburgo. Leopoldina sabia que sua antepassada, a imperatriz Maria Tereza, ordenara a colonização ao longo do Rio Danúbio para conter o avanço dos turcos em direção ao Centro da Europa.


A situação no Sul do Brasil era parecida. Achava-se que a colonização desses territórios contribuiria para firmar a estabilidade geopolítica. A Prússia, da qual resultaria depois a Alemanha, possuía um exército, e dom Pedro I admirava o exército prussiano. O Brasil precisava de soldados, pois quem iria defender o Brasil, depois da independência? Dom Pedro estava interessado em mercenários alemães, mas, possivelmente para não expor sua intenção, decidiu chamar colonos para povoarem o Sul.


O que o governo brasileiro fez para atrair colonos alemães no século 19?


Houve vários incentivos. O governo brasileiro procurou atrair gente pagando a viagem, prometeu terras, sementes, gado, suprir o necessário no início, material de construção, ferramentas, prometeu também o gozo de todos os direitos civis, isenção de impostos por cinco anos e liberdade de crença.


No Brasil diz-se que, quando a esmola é muita, o santo desconfia. Os alemães só foram desconfiar de tantas promessas quando era tarde demais. No caso de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, as parcelas dos primeiros imigrantes ficavam a 30 ou 40 quilômetros do local onde eles eram deixados no litoral. E não havia estradas, nem ruas, nem escolas, nem nada, o que deve ter causado muito trabalho e lágrimas, no início.


E, no que diz respeito à liberdade religiosa, o governo deveria ter previsto que viriam muitos protestantes entre os colonos. Acontece que, pela Constituição do Império, de 1824, o catolicismo era a religião oficial. Ou seja, a liberdade de confissão prometida aos colonos era inconstitucional. Por isso, os cultos de outras religiões só podiam se realizar em recinto privado, em casas que, por fora, não tivessem caráter de igreja.


E que motivo tinham os alemães para deixar seu país e ir desbravar regiões inóspitas no Brasil. Não terá sido apenas o espírito de aventura?


Certamente os mais jovens tinham esse espírito. No fundo, ninguém pode dizer exatamente o que motivou essas pessoas. Muitas certamente foram movidas pelo desejo, muito humano, de progredir, de levar uma vida melhor, o que não era possível em seu país naquela época. Nas famílias alemãs, apenas o filho mais velho herdava. Mas era comum terem oito, dez ou até mais filhos.


A propaganda do governo brasileiro despertou muita esperança nos camponeses alemães. Possuir terras era um sonho para muitos. E que terras!  Sessenta ou 70 hectares eram uma quantidade impressionante.


Depois é preciso ver as razões históricas. As guerras napoleônicas haviam levado miséria e caos à Alemanha na época da emigração para o Brasil. As lavouras eram destruídas, casas incendiadas, morte, os homens foram dizimados, as mulheres violentadas pelos soldados. A Renânia, a região do Rio Reno, de onde emigraram muitos, sempre havia sido palco de conflitos e guerras. A agricultura era a principal atividade nas primeiras colônias alemãs no Rio Grande do Sul e outros estados do Brasil.


Mas foram somente camponeses que se mudaram para o Brasil?


Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift:  Professor Lauro Müller, no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, o qual dirigeAlém de agricultores, foram também artesãos. A emigração começou em 1824, isto é, 70 anos após a invenção da máquina a vapor na Inglaterra, e seus efeitos aos poucos se faziam notar no continente europeu: a mão-de-obra tornou-se supérflua. A perspectiva de não ter trabalho deve ter pesado entre as razões de emigração.


Posteriormente, pudemos reconhecer que esses artífices que ficaram sem possibilidades na Alemanha foram de grande importância para o início da industrialização no Sul do Brasil. Eles trabalhavam com couro, ferro, madeira e os mais diversos materiais. Muitos sobrenomes alemães que encontramos no Brasil são designação de ofícios: Schmidt é Schmied, o ferreiro; Weber é o tecelão; Zimmermann é o carpinteiro; Müller, o moleiro.


O trabalho desses artesãos era muito apreciado. Aurélio Porto, que escreveu O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul, diz que a palavra serigote, que significa uma sela rústica, vem do sehr gut (muito bom) do alemão, pois o trabalho alemão acabou sendo apreciado pelos gaúchos de São Francisco, a parte de cima da serra. Com seu trabalho, os artesãos constituíram a base, o ponto de partida para a industrialização no Rio Grande do Sul. Dai não é de se admirar que muitas indústrias tenham se concentrado no Vale dos Sinos.


Por onde se espalharam os alemães no Brasil?


A Deutsche Kolonie de São Leopoldo se estendia de Sapucaia do Sul até Campo dos Bugres, hoje Caxias do Sul, no norte, e de Taquara, no leste, até Montenegro, no oeste. Com a chegada de mais imigrantes, surgiram novas colônias e povoações nos vales dos rios Taquari (Estrela, Lajeado, Teutônia e outras), Pardo e Pardinho (Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires, Candelária) e no sul do Estado (São Lourenço). Essas e outras são chamadas povoações da "segunda geração".


No final do século 19 e começo do século 20, os imigrantes se concentraram na serra, em lugares como Ijuí, Santa Rosa, Panambi, Cerro Largo e muitos outros. Depois começaram a se expandir pelo Brasil, através de seus descendentes de segunda, terceira e quarta geração.


Os que vieram do Rio Grande povoaram a parte oeste de Santa Catarina, depois de atravessar o Rio Uruguai. Alguns seguiram para o Paraná e de lá muitos foram para o Mato Grosso. Hoje eles já chegaram em Rondônia. Por isso não é raro encontrar gente loira de olhos azuis, tomando chimarrão e falando alemão bem no norte do Brasil.


A década de 30 foi difícil para os alemães no Brasil, não somente por causa da nacionalização de Getúlio Vargas...


Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift:  Fachada do Museu Histórico Visconde de São LeopoldoFoi a época das ditaduras: Salazar em Portugal, Mussolini na Itália, Stalin na Rússia, Hitler na Alemanha e Vargas no Brasil. A ideologia de Hitler encontrou adeptos em vários lugares, e o próprio Getúlio chegou a simpatizar com ela.


Havia agentes nazistas que tentaram ganhar adeptos entre a colônia alemã, não apenas no Rio Grande do Sul, como também em outros estados. Mas daí a concluir que os colonos alemães e seus descendentes eram nazistas, não tem cabimento.


Vargas tentou combater a propaganda nazista com sua campanha de nacionalização. Ao mesmo tempo, ele queria limitar qualquer influência política dos alemães. Falar alemão em público foi proibido. Meu pai, por exemplo, foi chamado à delegacia por ter dito Guten Morgen (bom dia), ao cumprimentar alguém na rua. E havia quem denunciasse isso.


A polícia também chegava na casa das pessoas e dava fim em tudo o que estivesse escrito em alemão. Até bíblias foram confiscadas nessa época, e houve quem destruísse aqueles pratos de parede que as famílias alemãs tinham com os dizeres Glaube, Liebe, Hoffnung (Fé, amor, esperança), só para evitar problema.


No Museu Histórico de São Leopoldo, eu tenho alguns desses panôs bordados com dizeres em alemão, que se colocava na cozinha, geralmente em cima do fogão. Pois uma vez veio uma senhora visitar o museu e me disse: "Se eu soubesse que isso um dia ia parar num museu, eu teria guardado. O meu virou capacho quando o alemão foi proibido."


Essa época foi difícil, pois os jornais foram proibidos, cultos e missas em alemão também, assim como reuniões nas associações que os alemães fundaram, de canto, ginástica e atiradores. Mas o pior de tudo foi o fechamento das escolas, pois eram centenas, e o governo não tinha condições de assumir de uma vez todos esses alunos, foi um caos.


Não se perdeu o idioma alemão com isso, as tradições?


As tradições alemãs sofreram muito e, onde antes havia bailes, festas, teatro e cantoria, se estabeleceu o silêncio e o medo. Uma geração inteira ficou sem conhecer suas raízes, o que é importante como orientação e para a identidade. Muitos esqueceram o alemão que sabiam, ou nem aprenderam a língua, o que é uma perda irreparável. Durante a Segunda Guerra isso se acentuou mais ainda.


Somente depois é que a vida nas regiões de colonização alemã tornou a voltar ao ritmo normal. Calcula-se que um quinto dos gaúchos falem alemão, uns falam bem, outros só um pouco. Há quem fale também o dialeto do Hunsrück, que eu aprendi na minha família, mas isso infelizmente está se perdendo, tanto o alemão como o dialeto. Hoje o alemão também é ensinado nas escolas públicas.


Mas, a bem da verdade, é preciso dizer que, na época da guerra, muitas autoridades no interior do Estado conheciam as comunidades alemãs, sabiam que todos ali eram bons cidadãos brasileiros, cujo único crime era a sua origem alemã, e por isso reagiram com muita moderação. Os poucos demagogos que aderiram à funesta ideologia, e que provocaram tudo isso, nunca pagaram por aquilo que fizeram.


 


Neusa Soliz 23 julho 2011


http://www.dw-world.de/dw/article/0,,1158846_page_2,00.html


 


 


 


A história dos alemães no Brasil e seu envolvimento com o progresso econômico da nação


 


Angelita Kasper


http://angelitakasper.blogspot.com/  - 15 outubro 2009

O que motiva uma pessoa a emigrar do seu país, cruzar o oceano para começar uma nova vida num lugar longínquo e desconhecido? Cada um dos imigrantes hoje residentes na Europa poderia dar a esta pergunta a sua resposta pessoal. Mas pode-se supor que todos chegam aqui buscando uma vida melhor, almejando desenvolver-se como indivíduo, desejando realizar um sonho ou mesmo fugindo de uma realidade insuportável. O tempo passa, as guerras são outras, os fluxos migratórios mudam de direção, mas nós humanos sempre estivemos em busca de um algo melhor. Do mesmo modo, os europeus que emigraram para o Brasil e outros países a partir do começo do século 19 até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) perseguiam o sonho de construir uma nova vida no Novo Mundo.
Entre as cerca de 50 milhões de pessoas que deixaram o Velho Continente entre o começo do século 19 e a primeira metade do século 20, estima-se que aproximadamente 4,5 milhões se estabeleceram no Brasil. Dados exatos sobre o número de imigrantes originários de regiões de língua alemã não são possíveis, devido a falta de registros oficiais sistemáticos das autoridades brasileiras. Das primeiras colônias nos estados do sul até a Segunda Guerra, passando por proibições na época do império e grandes levas nas décadas de 20 e 30, o número total de imigrantes alemães oscila entre 235 mil e 280 mil.

A partir de 1824, quando foi fundada a primeira colônia alemã de São Leopoldo, o Rio Grande do Sul passou a ser o destino das grandes correntes migratórias originárias da Alemanha. Entre 1845 e 1859, novos contingentes de imigrantes fundaram colônias em Santa Catarina, onde hoje floresce a indústria têxtil, prospera a cerâmica e, mais recentemente, a informática.

Em 1850, a legislação brasileira de imigração mudou: as terras, que antes eram dadas às pessoas, agora tinham de ser compradas a preços subsidiados pelo governo brasileiro. Embora aparentemente restritiva, esta lei acelerou a imigração, já que eliminava dúvidas a respeito da posse da propriedade.

Entre a proclamação da República, em 1889, até 1919, chegaram ao Brasil 356.500 imigrantes, dos quais somente 15% eram alemães. O último fluxo migratório originário da Alemanha se deu no período entre a 1a. e a 2a. Guerra Mundial. Nos anos 20 se tratavam principalmente de vítimas da guerra chegando da Alemanha; nos anos 30 foram, antes de tudo, os perseguidos e adversários da ditadura alemã. Também alguns partidários do nazismo buscaram refúgio no Brasil.

Com as levas de imigrantes de outra origem, o número de alemães foi superado pelo contingente imigratório de origem italiana, portuguesa e espanhola. Eslavos, principalmente da Ucrânia e da Polônia e, por último, imigrantes japoneses também se estabeleceram no país. Aos colonos alemães coube, no entanto, o trabalho pioneiro de marcar as fronteiras e cultivar as terras virgens do sul do Brasil. Sabe-se que foram camponeses, artesões, soldados, trabalhadores empobrecidos, profissionais liberais e clérigos que cruzavam o oceano. Com eles ia não só o sonho de construir uma vida melhor, mas também de reconstruir sua cultura, sua língua e seus costumes, o que veio colaborar para o imenso mosaico cultural brasileiro. Atualmente calcula-se cinco milhões de brasileiros com descendência alemã.

Emigrar é preciso

Para entender o movimento migratório da Alemanha para o Brasil iniciado há cerca de180 anos é preciso retornar ao momento histórico vivido no início do século 19.

Quando se fala na Alemanha do período que coincide com o início da emigração, é preciso considerar que o país ainda não existia como estado-nação, pois o Império Alemão foi fundado apenas em 1871 por Otto von Bismarck. Antes desta data não havia "alemães", mas sim prussianos, bávaros, renanos, pomeranos, austríacos, boêmios. Em outras palavras, existiam diversos reinados, principados e ducados – e todos tinham uma língua e portanto uma cultura comum, a alemã. A uní-los e separá-los, havia apenas a religião cristã: luteranos de um lado, católicos de outro.

As guerras napoleônicas espalharam terror, caos e miséria pela Europa no período anterior ao início da imigração. A Alemanha, em especial a região fronteiriça à França, havia sido devastada por diversos conflitos entre os dois países, gerando uma emigração em massa para o Novo Mundo. Outro fator que causou a emigração alemã foi a retalhação exagerada das terras, característica da tradição religiosa, onde o primogênito ou o filho mais jovem permanecia nas terras dos pais, tendo os irmãos como súditos. As famílias geralmente numerosas já não se mantinham mais em áreas de até cinco hectares de terra. Nas cidades, a situação não era melhor. A revolução industrial iniciada na Inglaterra em meados dos século 18, atingiu o centro da Europa gerando desemprego em massa. As vacinas, a higiene e as medidas de saúde pública aumentaram a expectativa de vida e contribuíram à superpopulação do Velho Mundo. Como a Alemanha não possuia colônias para onde pudesse enviar seu excedente populacional, restava a opção da emigração. Logo que apareceram os agentes divulgadores do eldorado das Américas, a procura foi grande.

No Brasil, ante o avanço das tropas napoleônicas, esperava-se a corte portuguesa. No final de 1807, rei e companhia fugiam para lá. Como centro do império português, a colônia passou a ser palco para projetos ligados ao seu desenvolvimento. Um decreto do rei D. João VI, de 16 de março de 1820, convidava outros países a apoiar a imigração para o Brasil, na tentativa de formar as bases para uma imigração organizada.

O casamento do príncipe de Portugal e do Brasil, Dom Pedro, com a arquiduquesa Leopoldine von Habsburg, filha do Imperador Francisco I da Áustria, em 1817, havia aproximado as relações do Brasil com a Áustria e, indiretamente, com outras regiões germânicas. Além disso, o governo imperial deu preferência aos imigrantes da Alemanha, Suíça e Itália porque não tinha interesse em trazer súditos de outras potências imperialistas, como Inglaterra e França. Assim, as primeiras tentativas de trazer imigrantes datam já de 1818. Suíços fundaram Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, e alemães, a Colônia Leopoldina, na Bahia. Estas primeiras colônia não tiveram, no entanto, muito êxito.

O retorno do rei à Portugal propiciou a independência, ocorrida a 7 de setembro de 1822, e o surgimento do Império do Brasil. O até então príncipe regente, Dom Pedro, tornou-se o imperador e a austríaca Leopoldine von Habsburg, imperatriz do Brasil. Nessa altura, o país vivia já há mais de 300 anos do suor, do sangue e das lágrimas de escravos traficados da África. Toda a riqueza – açúcar, café, gado, pedras precisosas – prosperava sobre trabalho escravo.

O filho do rei português conseguiu a coroa de “Imperador do Brasil” porque fez a colônia assumir a dívida monetária que Portugal tinha com a Inglaterra. O Brasil comprou sua independência e tornou-se dependente de outro país.

A partir do início do século 19, a necessidade de buscar uma alternativa ao regime escravocrata, devido à constante pressão inglesa, se fazia cada vez mais forte. Os grandes proprietários de terra, especialmente os fazendeiros de café de São Paulo, tinham grande interesse em trazer imigrantes europeus. Pretendiam empregá-los nas lavouras, pois a mão-de-obra escrava era cada vez mais escassa e, além disso, temia-se a proibição total do tráfico.

Outras razões para a intensificação da política imigratória estavam ligadas a fatores de ordem econômica e militar. O jovem império precisava diversificar a produção para garantir o abastecimento de alimento nas cidades. Na região ao sul do país, imensos espaços geográficos precisavam ser habitados e cultivados. E a região ao nordeste era contra o Império, exigindo o envio de tropas. Apesar da declaração da independência, o país estava longe de conseguir a união. Com era um território muito grande, o exército brasileiro não estava em condições de fazer frente a confrontações armadas. Daí a idéia de recrutar tropas estrangeiras. Com o objetivo de recrutar colonos, o governo enviou agentes de imigração à Alemanha, entre eles o major Georg Von Schäffer.

Com brochuras e cartazes, música e poemas, os agentes faziam propaganda nas cidades e vilarejosos. Sem respeitar a proibição outorgada pelo Congresso de Viena em 1815, que impedia o recrutamento de soldados para evitar novas guerras sangrentas, eles recorriam porém a meios ilegais para também recrutar soldados sob o rótulo de colonos. Muitos soldados alemães lutaram na Guerra do Uruguai (1825-1828), na Revolução Farroupilha (1835-1845), na guerra contra a Argentina (1851-1852) e na Guerra do Paraguai (1864-1870).

A historiadora brasileira Karen Lisboa, que vive em Berlim, comenta ainda mais um motivo da imigração européia: um projeto de branqueamento do país. "Diante de uma população com um grande número de negros e mestiços, as elites preponderantemente brancas e marcadas por preconceitos raciais viam com bons olhos a entrada de europeus em seu país”, esclarece Lisboa, “Acreditava-se que, por meio da mistura étnica, a sociedade brasileira poderia embranquecer”.

Diferentemente dos imigrantes de hoje, que podem retornar ao seu país de origem a passeio e mesmo regressar, quem decidia emigrar no século 19 cruzava o oceano para nunca mais voltar. O destino e o sucesso era incertos e a despedida dos familiares e amigos era para sempre. Dias e mais dias eram precisos para a longa jornada até os portos, principalmente em Hamburgo e Bremenhaven, a ainda era necessário esperar para o embarque. A travessia além-mar, por si só, durava entre 9 e 12 semanas. Com péssimas condições de higiene e alimentação, havia doenças e óbitos sobretudo entre as crianças. No Brasil, a depender do destino ou do tipo de atividade a executar, os alemães ainda enfrentavam mais uma viagem, do Rio de Janeiro até a terra ou a selva onde seria fundada uma colônia.

A fundação das colônias

“Nichts als Wald, Wald, Urwald war hier zu sehen. (...) Der Wald konnte uns nicht aufnehmen, kein Schritt ließ sich dort hinein tun, er war dicht wie eine Mauer. Mein guter Freund, der Vater, wusste Bescheid. Er nahm ein sichelartiges Beil, das an einem langen Stiel befestigt war, suchte einen passenden Baum am Waldrand und schlug das Unterholz, Rohr und Bambus, dort fort. Mein Mann und ich griffen mit zu, und eine Stunde darauf saßen wir unter dem dichten Dach eines Urwaldriesen, unsere erste Wohnung im Urwald. Dann nahm der Vater Abschied. Mein Mann begleitete ihn ein St¸ck des Weges. Als er zurückkam, saß ich auf einer Kiste unter dem großen Baum und weinte. Und hätte es mein Leben gekostet, ich hätte die Tränen nicht zurückhalten können.“ Emilie Heinrichs: Die Frau des Auswanderers.
Erlebnisse einer Kolonistenfrau in Südbrasilien. Freiburg i. Br., 1921.

Em julho de 1824 chegou ao Rio Grande do Sul o primeiro grupo de 39 imigrantes alemães que fundaram a colônia de São Leopoldo, no Vale do Rio dos Sinos. O grupo de imigrantes aliciado pelo Major von Schäffer em Hamburgo era formado por camponeses, artesões, comerciantes, dois médicos, um farmacêutico e um pastor. Entre 1824 e 1825 seguiram-se onze levas, muitas das quais oriundas da região alemã de Hunsrück - num total de 1027 imigrantes. Até 1890, os alemães fixaram-se em terras menos habitadas, ao longo da Serra Geral, hoje um parque nacional. Mais tarde, as colônias se expandiram até o Planalto do Noroeste do estado. Pomeranos, saxões, sudetos, vestfalianos e renanos estavam entre os povos que colonizaram o Rio Grande do Sul.

São Leopoldo transformou-se em vila-modelo, com terras para lavouras medindo 70 hectares. Os excedentes agrícolas e o artesanato era vendido no ávido mercado consumidor de Porto Alegre. Por volta de 1855, São Leopoldo, já com 12 mil habitantes, estava em vias de se expandir. Nos 25 povoados iniciados neste período em volta de São Leopoldo, mais de 6 mil artesões fundavam novas oficinas. Ludwig Rau inaugurou, em 1829, o primeiro curtume do Brasil em Novo Hamburgo, hoje a capital dos calçados no Rio Grande do Sul. Portugueses e espanhóis já produziam gado para a produção de charque na fronteira oeste do estado. Os alemães passaram a utlizar a pele para produzir couro e artefatos como arreios, selas, utencílios para montaria e carroças, bem como botas militares. A partir da década de 40 do último século, as empresas do setor começaram a produzir sapatos mais sociais.

A noroeste de Santa Catarina estão localizadas três prósperas colônias alemãs da época, importantes até hoje: Blumenau (fundada em 1851), Joinville (1851) e Brusque (1860). A primeira foi fundada pelo farmacêutico Hermann Otto Bruno Blumenau com o auxílio de 16 outros imigrantes. Para a fundação do povoado, o governo brasileiro cedeu uma área de 220 quilômetros quadrados de mata (equivalente a ...) na região do Rio Itajaí-Açu. Morando em Berlim, Jutta Blumenau-Niesel, a bisneta do fundador da cidade, relata em artigo publicado no anuário do Instituto Hans-Staden alguns episódios vividos pelos primeiros imigrantes. Ela conta que a primeira enchente liquidou todo o trabalho da recém-erguida colônia e que outra ameaça era a ofensiva dos índios locais, que percorriam as terras como caçadores e pescadores, plantavam mandioca e milho e, a partir de 1830, também criavam animais.

Blumenau, que deveria se desenvolver como colônia agrícola, é hoje entre outros um importante pólo industrial têxtil. Um exemplo de grande êxito foi a oficina artesanal fundada em 1880 pelos irmãos Hermann e Bruno Hering. Herdeiros de uma tradição familiar secular de atividades em fiação e tecelagem, eles desejavam fugir da crise econômica causada pela guerra franco-prussiana, em 1871. Hermann Hering emigrou em 1878 e trabalhou como escrevente para os colonos do lugar até conseguir montar seu negócio. Comprou uma tricodadeira circular em Joinville e mandou vir a esposa, os dez filhos e o irmão. Atualmente, a quarta geração da família coordena o Grupo Hering, que conta com milhares de funcionários e está entre as maiores empresas do país.

Blumenau também é muito conhecida pela sua Oktoberfest. Realizada anualmente desde 1984, a festa dura três semanas e é a segunda maior do Brasil, depois do Carnaval, e já alcançou o título de segunda maior Oktoberfest do mundo, depois de Munique.

Em São Paulo, a imigração alemã foi mais urbana e espontânea. A colônia de Santo Amaro foi fundada por 17 famílias evangélicas alemãs em 1829, enquanto outras 12 famílias católicas alemãs preferiram as terras de Itaparica da Serra. Ambas são hoje subúrbios da metrópole paulista. Em 1849, chegaram mais 500 imigrantes alemães em Ibicaba, perto da cidade de Limeira. Por volta de 1888 foram fundadas em São Paulo, na região cafeicultora entre Campinas, Limeira e Rio Claro, vários povoados alemães e suíços, tais como Friedburg, Helvetia e Kirchdorf, entre outros.

Dirk Brinkmann, ex-diretor do Instituto Martius-Staden, que abriga em São Paulo um grande arquivo relacionado à imigração alemã no Brasil, destacou em entrevista à Deutsche Welle que a principal herança legada pelos alemães foi a constituição, a partir do comércio, do primeiro núcleo para uma classe média paulistana. O especialista também aponta a participação das indústrias alemãs: “Eu diria que, a partir de 1950, muitas empresas alemãs realmente empurraram o Brasil para a modernidade. Se considerarmos que o estado de São Paulo conta hoje com quase 1.200 empresas de capital alemão, isso faz da capital a maior cidade industrial da Alemanha”.

Outros estados

A imigração alemã para o Paraná, diferentemente do que ocorreu nos outros estados do sul, não foi tão intensa no século 19, ficando restrita a correntes migratórias individuais. Por volta de 1877 foram fundadas no estado, principalmente por alemães-russos, as vilas de Mariental e Johannisdorf, por exemplo. No Rio de Janeiro, o major Julius Friedrich Köler fundou Petrópolis em 1845. Oficial engenheiro, ele construiu estradas e pontes. Heinrich Halfeld fundou em 1850 a cidade de Juiz de Fora, no atual estado de Minas Gerais. Também no atual estado do Espírito Santo assentaram-se alemães. Os primeiros colonos chegaram do Hünsrück em 1846 para fundar a colônia de Santa Isabel (hoje Domingos Martins). Atualmente a cidade conta com 26 mil habitantes e comemora todos os anos o Festival da Imigração Alemã (Sommerfest).

Em 1924, quando a Alemanha ainda vivia sob as catastróficas conseqüências da Primeira Guerra Mundial, chegou também ao estado do Mato Grosso do Sul um grupo de alemães. Eles chegaram com o auxílio de uma companhia de imigração alemã, a Territorial Sul-Brasileira H. Hacker. Essa companhia comprometeu-se com a fundação de colônias alemãs ao longo da estrada de ferro "Noroete do Brasil". No início, os alemães chegaram à cidade de Miranda e, mais tarde, a Terrenos. Ambas, na época, ainda faziam parte da capital Campo Grande.

Imigrantes formam a primeira classe média brasileira

Durante todo o período colonial não existiu no Brasil uma classe média. Em seu livro “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda explica porque essa classe não surgiu espontaneamente com o trabalho individual de colonizadores portugueses. "O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho", escreve. Os colonizadores portugueses viam o trabalho corporal como vil, ignóbil, adequado apenas aos escravos. Assim, quando o Brasil se tornou independente, sua estrutura social continuava dividida em duas: de um lado havia a diminuta camada formada pela aristocracia branca e, do outro, a imensa massa de escravos negros e mulatos. O novo governo imperial reconheceu a necessidade urgente da criação de uma classe média, composta por pequenos agricultores livres e artesões, para impulsionar a economia da jovem nação brasileira. A solução encontrada para o problema foi trazer imigrantes europeus. Primeiramente chegaram os alemães e, 50 anos mais tarde, os iltalianos, os poloneses e os japoneses, entre outros.

Segundo Karl Heinrich Oberacker, em seu artigo “A importância histórica e social da imigração alemã”, os imigrantes alemães chegaram para construir uma nova existência, uma nova pátria. Eles não emigraram em busca do eldorado, mas porque a superpovoada Europa já não lhes oferecia mais trabalho e possibilidade de desenvolvimento. Eles não vieram como aventureiros, mas como responsáveis pais de família, que buscavam uma nova terra para os seus.

O historiador Sílvio Corrêa chama a atenção para o fato de que os descendentes de alemães estão hoje dissolvidos em todos os extratos sociais do Brasil. “Se é inegável a importância de alguns empresários alemães, assim como de casas comerciais e de inúmeros agricultores para a diversificação e desenvolvimento econômico do sul do Brasil, é importante salientar que o próprio desenvolvimento regional provocou novas desigualdades e acirrou outras. Assim que a presença alemã na economia e na sociedade brasileira não se encontra apenas no empresariado ou nas camadas superiores. Atualmente, ela também se encontra entre os desempregados, no Movimento dos Sem-Terra (MST), nas camadas inferiores da população sulina do Brasil", diz Corrêa.

A contribuição dos imigrantes no desenvolvimento econômico

"Denn obgleich wir nicht schreiben können, dass es schlecht hier im Lande beschaffen ist, so können wir auch nicht sagen, dass es gut bestellt sey!
Es ist ein mühsam Leben und schwere Arbeit hier! Wir müssen das Joch selbst tragen und mit Hand alle Feldarbeit verrichten - Dagegen habt Ihr das Zugvieh das Euch das Joch zieht! - An Lebensmittel haben wir vollauf! Darin war kein Mangel!“ Johann Peter Görhardt aus Irmenach in einem Brief an seinen Bruder. São Leopoldo, 1836. (Zitiert aus Zeller Jahrbuch, 1965.)

Conforme o historiador Martin Dreher, do Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros da Universidade do Vale dos Sinos – Unisinos, de São Leopoldo, a maior contribuição do imigrante alemão no desenvolvimento da economia brasileira está ligada ao surgimento de um novo modelo agrícola num Brasil que era dominado pelo latifúndio, pela escravidão e pela monocultura. Trata-se da pequena propriedade agrícola, na qual a família agricultora livre produz para o consumo próprio e abastece, com o excedente, o mercado interno. Um segundo aspecto que deve ser sublinhado, segundo Dreher, é o fato de cerca de 60% dos imigrantes terem sido artesãos, ao longo do século 19. Eram assim os primeiros profissionais a ingressar no país, pois até então o regime português vedava sua entrada na colônia.

As primeiras oficinas artesanais, que eventualmente se transformaram em manufaturas, foram fundadas no Brasil principalmente por artesões alemães. Estradas de ferro, máquinas agrícolas, indústrias química e pesada, fábricas de chocolate, de porcelana e de fósforos estão entre os 85 setores com produtos pioneiros de alemães e seus descendentes no Brasil, conforme dados da Câmara Brasil-Alemanha de Indústria e Comércio.

Um alemão construía os primeiros pianos cariocas. As salinas em Cabo Frio, ao norte do estado do Rio de Janeiro, foram reativadas por um oficial alemão, que as desenvolveu de tal maneira que passaram a ser as maiores do país. Em 1828, Friedrich Bonne, de Hamburgo, fundou uma fábrica de chapéus na Bahia. Também em São Paulo e no Rio Grande do Sul confecções alemãs de chapéus foram fundadas.

O desenvolvimento das manufaturas e dos estabelecimentos industriais no Brasil está intimamente ligado com a siderurgia, com o fornecimento de metais. As siderúrgicas começaram a trabalhar com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, que trazia especialistas alemães em mineração. A técnica siderúrgica foi trazida por Friedrich Ludwig Varnhagen e introduzida por ele em 1811 em sua siderúrgica de São João de Ipanema. O fornecimento de ferro para São Paulo, até 1896, era feito principalmente pela Ipanema.

A Varig, a mais antiga companhia aérea do Brasil, foi fundada em 1927 por Otto Ernst Meyer Labastille. Após servir à força aérea alemã na Primeira Guerra Mundial, ele resolveu emigrar para o Brasil e criou uma das companhias aéreas mais importantes do país. A grande cervejaria Brahma foi fundada em 1888 por Joseph Villinger, enquanto a Antártica foi inaugurada em 1889 por iniciativa de Louis Bücher. Em 1959 a Antártica já era a maior cervejaria do Brasil, com 48 fábricas. Em 1999, a Brahma e a Antártica formaram a AmBev - Companhia de Bebidas das Américas. Em 2000, o Brasil já era o terceiro maiorprodutor de cerveja do mundo.

A fabricação de papel é outra atividade no Brasil que contou com uma relevante participação alemã. A primeira fábrica de papel do país foi construída em Petrópolis (RJ) por Wilhelm Schüch, o Barão de Capanema. A Companhia Melhoramentos de São Paulo, que há muitos anos produz "da árvore ao livro", também contou com o trabalho de imigrantes. O irmãos Weiszflog emigraram para o Brasil em 1890 e se tornaram sócios de um encadernador. O fornecedor de papel era a Melhoramentos, então propriedade do coronel Antônio Proost Rodovalho. Em 1920, os irmãos Weiszflog a compraram. A empresa construiu então uma fábrica de celulose e plantou 20 mil hectares de florestas. Hoje atua na área de papéis, madeira, reflorestamento, indústria gráfica e editora, entre outras.

A influência dos imigrantes foi decisiva também no setor do comércio e transportes da economia brasileira. Com a chegada da corte real, o número de casas comerciais alemãs de exportação começou a expandir. Já em 1812, os irmãos Wilhelm e Friedrich Fröhlich exportavam café. Em 1825, metade do açúcar e do café produzidos no Brasil iam para os portos hanseáticos de Hamburgo e Bremen. Em 1875, somente no Rio Grande do Sul, encontravam-se 22 firmas alemãs voltadas ao comércio exterior. Em Santos (SP), Theodor Wille fundou sua casa comercial em 1844 e começou a importar produtos e máquinas até então desconhecidas nas Américas. Além disso, se tornou um dos maiores exportadores de café, fomentando o porto de Santos e o progresso da economia cafeeira de São Paulo.

Técnicos alemães marcaram sua presença também na construção de estradas entre o Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras. Engenheiros alemães participaram em quase todos os projetos de construção de estradas bem como de projetos ferroviários no Brasil. A rede de telecomunicações, fundamental para a economia e a política de um país com dimensões continentais como o Brasil, também foi criada com a ajuda de alemães. A primeira linha telegráfica no Brasil foi instalada em 1852 por Wilhelm Schüch entre o quartel geral do exército, onde dava aulas de física, e o palácio imperial na Quinta da Boa Vista. Depois disso, o então Imperador Dom Pedro II confiou a Schüch a tarefa de construir a rede telegráfica nacional.

A reinvenção da cultura germânica no Brasil

Nova Berlim, Novo Hamburgo, Teutônia, Germânia, Frankental, Schweizertal e Johannisdorf são apenas algumas das cerca de 230 colônias alemãs existentes no Brasil. Casas em estilo arquitetônico enxaimel, ruas e jardins floridos, crianças loiras e de olhos azuis, cheiro de cuca assada em forno de barro.

Quem conhece a Alemanha e chega a alguma típica colônia alemã no sul do Brasil, poderia, num primeiro instante, fazer uma associação direta com alguma região da Baviera. Em pouco tempo, no entanto, faria a constatação de que a cultura dos teuto-brasileiros tem pouco a ver com a cultura dos alemães da atualidade.

Os imigrantes refizeram nas colônias a vida e os valores que trouxeram da Europa. Segundo Karen Lisboa, dependendo do lugar de seu desenvolvimento sócio-econômico, as características típicas alemãs, incluindo os regionalismo, passam por mudanças resultantes da assimilação da cultura luso-brasileira e de outras nacionalidades representadads entre os habitantes. Os imigrantes que ficaram em cidades grandes assimilaram-se mais rapidamente à sociedade receptora. Já no meio rural, o isolamento geográfico contribuiu para certa consevação da cultura de origem, que, no entanto seguiu o seu próprio caminho na nova terra.

O historiador e sociólogo Sílvio Corrêa estudou a identidade alemã no Brasil. Em seu doutorado, realizado na universidade de Münster, Corrêa fala que “as tradições germânicas são constantemente reinventadas".

Com as guerras mundiais e a campanha de nacionalização ocorrida no Brasil em fins da década de 30, o processo de assimilação da cultura local foi acelerado, em parte de forma obrigatória. Em meio a diversas medidas, escolas, associações e a imprensa teuto-brasileiras foram proibidas de empregar a língua alemã em público.

Embora tais proibições tenham sido suspensas após 1945, segundo Martin Dreher, a Segunda Guerra Mundial foi um corte bastante profundo para a questão da herança cultural. "Deve-se dizer que no Brasil surgiu uma cultura germânica de características muito peculiares já antes da guerra, com ampla gama de produção cultural, cuja memória vem sendo recuperada com uma série de estudos acadêmicos. O que hoje continua, após a perda do veículo de preservação cultural que é o idioma, é folclore, preservado através de festas, culinária, danças e turismo, construído a partir de um imaginário que nem sempre condiz com o histórico", diz Dreher. Para Sílvio Corrêa, também a urbanização provocou mudanças no modo de vida dos descendentes alemães, que se tornaram mais “livres” de suas origens rurais, étnicas e religiosas. "O 'abrasileiramento' foi mais espontâneo e ocorreu dentro do quadro da modernização", defende Correa.

Apesar de haver cada vez menos descendentes que aprendem o alemão como segunda língua materna, ainda é possível em muitas comunidades sulistas ouvir dialetos originários do Hunsrück e do Platinado. Devido à heterogeneidade lingüística dos próprios imigrantes alemães, houve influências mútuas entre os vários dialetos. Igualmente, os teuto-brasilieros absorveram vários termos do idioma português germanizando-os. Eis alguns exemplos:

Bisiklete (bicicleta): Fahrrad
Inkomodieren (incomodar): stören
Fum (fumo): Tabak
Luftschiff (avião): Flugzeug
Vende (venda): Kaufladen
vergastieren (gastar): ausgeben, verbrauchen, abnutzen
vergonye (vergonha): Schande, Scham

Panorama

Os alemães há 506 anos no Brasil - Os primeiros alemães a pisarem o solo brasileiro chegaram já no dia do "descobrimento", 22 de abril de 1500. Junto com Pedro Álvares Cabral vinham 35 artilheiros alemães e o assessor científico, astrônomo e médico alemão Johannes Varnhagen, conhecido como Mestre João. Sua carta ao rei Dom Manuel I de Portugal é o documento científico mais antigo do Brasil, anterior inclusive à carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota.

Também no primeiro povoado agrícola, São Vicente, na costa do Estado de São Paulo, fundado em 1532, encontravam-se alemães que investiram no negócio da cana-de-acúcar e defenderam a colônia contra os inimigos. O primeiro engenho de açúcar do Brasil foi contruído na colônia pelo técnico alemão Johann von Hülsen.

A imensa beleza da terra e a riqueza do solo, da fauna e da flora brasileiras atraíram inúmeros pesquisadores, exploradores e aventureiros alemães que até hoje são conhecidos pelas suas façanhas. Conhecida é a história de Hans Staden, canhoneiro alemão que chegou em São Vicente como náufrago em 1552. Enquanto trabalhava na defesa do povoado, Staden foi capturado pelos índios Tubinambás, passou cerca de 10 meses entre os canibais e só conseguiu sobreviver por ter feito amizade com o pajé da tribo. Foi resgatado e voltou para a Alemanha em 1555. O seu livro "A verdadeira história..." (Wahrhaftige Historia und Beschreibung einer Landschaft der wilden, nackten und grimmigen Menschenfresserleute) é o relato mais antigo com descrição precisa dos indígenas brasileiros.

Durante a tentativa de colonização empreendida por holandeses no nordeste (1630-1654) e no processo de acelerar a ocupação da Amazônia no século 18, contingentes maiores de alemães penetraram no Brasil. Alguns personagens de destaque durante o período colonial são Johann Heinrich Böhm, fundador do exército brasileiro; Friedrich Varnhagen, que introduziu a indústria siderúrgica em 1811; Johann Moritz Rugendas, pintor que voltou à Europa em 1825 com mais de 500 pinturas do Brasil; e Alexander von Humboldt, renomado ....

A participação dos alemães no desenvolvimento do Brasil Colônia estava sempre relacionada com pessoas isoladas e realizações individuais. Somente com a vinda da corte portuguesa ao Brasil no final de 1807 e a posterior independência do Brasil em 1822, é que começam a chegar as grandes levas de imigrantes alemães ao país.

por ANGELITA KASPER


Fontes

“Die sozialgeschichtliche Bedeutung der Deutschen Einwanderung”, Karl Heinrich Oberacker

Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, link para www.ahkbrasil.com

UNISINOS, Deutsch-Brasilianisches Studienzentrum, São Leopoldo


Postado por angelita kasper


 


25 de Julho


O fundamento geral da questão agrária no Brasil reside em que o monopólio da terra é a causa do nosso atraso. Abalado ou eliminado esse monopólio, as forças produtivas darão um salto para a frente.


A compreensão teórica do problema exige, porém, o estudo de vários de seus aspectos, entre os quais têm um grande realce os que se referem à renda da terra no Brasil.


Teoricamente, a renda pré-capitalista pressupõe a existência de duas classes: a dos proprietários de terra e a dos pequenos produtores individuais, possuidores de meios de produção e dispondo de alguma independência econômica. A renda capitalista pressupõe a existência de três classes: a dos proprietários de terra, a dos locatários capitalistas que exploram o trabalho assalariado e a dos assalariados que trabalham para estes capitalistas e não dispõem de meios de produção.


As relações agrárias em nosso país envolvem umas e outras classes pressupostas pelos dois tipos de renda – a pré-capitalista e a capitalista. O estudo da renda territorial contribuirá para assinalar o sentido do desenvolvimento de nossa economia agrária e definir que classes sociais e aspectos de renda predominam no campo. Possibilitará também distinguir o sentido histórico em que marcham estas classes, o grau de diferenciação da massa camponesa e os elementos mais gerais para a solução da questão agrária.


É indispensável para isto o exame das relações econômico-sociais sob o ponto de vista da análise da renda da terra, através de cada uma das nossas principais culturas.


I. A Renda da Terra na Cultura do Café


O tipo econômico de exploração agrícola característico da cultura cafeeira é a fazenda do café. Como entidade econômica, a fazenda de café nos apresenta dois tipos básicos da população rural do país: de um lado o fazendeiro de café, de outro, o colono. São dois tipos antagônicos, que se debatem por entre contradições inconciliáveis, reflexo do predomínio absoluto da propriedade privada dos meios de produção na economia agrária.


Uma das fontes de riqueza do fazendeiro de café reside na apropriação do trabalho suplementar do colono.


Segundo Marx, a renda-trabalho, a renda da terra em sua forma mais simples, é produzida:


"quando o produtor direto trabalha parte da semana num terreno que lhe pertence de fato, com instrumentos que lhe pertencem de fato ou de direito (arado, gado, etc.) e emprega os outros dias da semana em trabalhar no terreno do latifundiário" (O Capital, livro III – cap. 47, II).


No nosso caso, a renda-trabalho produzida pelo colono apresenta-se com as modificações resultantes da época histórica que vivemos, mas isso em nada lhe modifica o caráter. O colono trabalha exclusivamente na terra do senhor. O colono não tem nenhuma terra. Ele apenas consegue trabalhar para si na terra do fazendeiro, assim mesmo quando lhe é concedido o direito de plantar no vão. Algumas vezes lhe é permitido plantar fora, mas ainda aqui nas terras do senhor. Nesse sentido, as vantagens históricas da derrocada do feudalismo não lhe serviam ao menos para gozar do mesmo privilégio do servo que entregava seu super-trabalho ao senhor feudal, consolando-se em trabalhar no pequeno pedaço de chão de cuja propriedade se orgulhava.


A separação entre o trabalho suplementar do colono e o trabalho necessário hoje só é nítida e só se distingue bem quando em determinados dias do ano tem que prestar serviços gratuitos ao fazendeiro de café (corvéia), consertando estradas e cercas, limpando pastos, extinguindo incêndios. No resto, já não se distingue tanto, da mesma maneira como vai se distinguindo menos nos outros tipos de renda pré-capitalista.


Mas não é somente da renda-trabalho que se apropria o fazendeiro quando explora o colono de café. O fazendeiro exige que o colono lhe venda em primeiro lugar os cereais que plantou. Plantando para si mesmo, o colono, colocado aparentemente na posição de produtor independente, além do produto necessário, se apropria, ele mesmo, do produto suplementar, isto é, do excedente do trabalho necessário à sua manutenção. Pois bem, o produto suplementar do colono (resultante do plantio feito por sua conta) é obrigatoriamente vendido ao fazendeiro que lhe retribui com um preço abaixo do valor do produto suplementar. Nesse caso, o colono entra com uma parte do produto que plantou, o fazendeiro se apropria da renda-produto. É um novo pagamento em espécie que lhe faz o colono, na prática.


A concessão do fazendeiro de café que faculta ao colono plantar na terra da fazenda, tanto quanto a proibição de caçar, pescar, tirar lenha em suas matas, é uma das mais importantes características dos restos feudais nos dias de hoje. O colono que recebeu qualquer parcela de terreno do fazendeiro para plantar está na completa dependência do senhor, tal como acontecia no tempo do feudalismo. Amarrado à miragem desse pedaço de terra, o colono presta serviços gratuitos ao fazendeiro quando limpa os cereais que plantou (pois aqui também limpa indiretamente o cafezal sem nenhuma retribuição), aduba o terreno gratuitamente com o feijão das águas e sujeita-se à interminável exploração do fazendeiro, permanecendo na fazenda, a troco desse precário direito de plantar, que é mais uma condição da miserável servidão que o aniquila.


Por último, o colono contribui com renda-dinheiro para o fazendeiro sempre que lhe paga os carretos de cereais ou de lenha, as mudanças, etc. Outra forma de renda-dinheiro é o pagamento de multas. Não tendo o colono outra fonte de dinheiro e só podendo obter dinheiro do trabalho que realiza na fazenda ou dos produtos que planta, sempre que paga dinheiro ao fazendeiro, é como se estivesse trabalhando de graça para ele ou lhe entregando o produto em espécie do seu trabalho. Como vemos, o fazendeiro mantém acorrentado o colono, explorando-o em todos os tipos de renda pré-capitalista. Para que tão odiosas relações não sejam quebradas, o fazendeiro fá-las estipular num leonino contrato escrito, que é o que pode haver de mais monstruoso como atestado das sobrevivências feudais e semifeudais.


Mas a fazenda de café não se circunscreve às limitações insuportáveis do feudalismo. Ela é, também, um empreendimento capitalista no campo. Isto se traduz no fato do colono ser também um assalariado. Não é somente com a renda pré-capitalista arrancada ao colono que o fazendeiro se satisfaz. O colono deverá receber um determinado salário em cruzeiros por determinado número de pés de café que tratar anualmente. E não é só. Receberá salário também por determinados serviços, isto é, pela colheita do café em coco, pelo café derriçado no chão, etc. Seu salário será a mesada, que recebe de 30 em 30 dias geralmente, quando não atrasam os pagamentos.


O regime do salariato nas fazendas de café é extensivo aos volantes, isto é, aos camaradas e peões, e aos retireiros, carroceiros,etc.


A fazenda de café constitui, assim, um empreendimento de tipo todo particular no campo. De um lado encontra apoio econômico na renda pré-capitalista; de outro lado explora o braço assalariado. Mas a sua principal característica está em que não separa uma coisa da outra. Quando se trata do colono, é tão estreita a relação entre a escravidão do salariato e a da renda-trabalho que basta um único contrato para torná-las inseparáveis. É evidente que são formas de exploração separadas historicamente, mas, num país oprimido e dominado pelo imperialismo, onde o monopólio da terra é lei geral, tornou-se possível sua junção no tempo.


É necessário também destacar que a fazenda de café não é um empreendimento industrial do campo, como é por exemplo a usina de açúcar. O capital empregado na fazenda de café tem a finalidade de desenvolver a cultura do café. Todo o empreendimento industrial para beneficiar o café não tem o valor e a importância que se apresentam quando a matéria-prima é transformada, tal como acontece com a cana e o algodão. A importância das máquinas de beneficiar café é muito menor, desde que o produto é vendido em grão para o mercado externo.


No caso já referido da cana e do algodão é possível tirar lucros com a indústria correlata organizada, num caso para transformar a cana em açúcar e álcool, no outro para descaroçar o algodão e obter os subprodutos.


Aliás, quando se trata da usina de açúcar, a indústria é o único meio de apurar os imensos lucros da lavoura.


Tratando-se da fazenda de café, entretanto, ela por si só basta para reunir todos os benefícios da lavoura nas mãos de um só potentado – o fazendeiro de café. O fazendeiro de café (nisso – e somente nisso – ele é diferente do usineiro) consegue com o emprego do capital, sem a utilização de máquinas para transformar o produto, amealhar uma fortuna fabulosa arrancada ao suor do colono.


Ainda quando empregue máquinas para melhorar o cultivo (e não para transformar o produto), o fazendeiro de café é também um capitalista que emprega seu capital na terra, aluga o braço do trabalhador e ainda lhe suga, como latifundiário, a renda-trabalho, para não falar em toda a renda pré-capitalista. O fazendeiro de café é dono de sua terra, que ele mesmo explora, sem jamais entregá-la a um locatário capitalista, salvo em certas circunstâncias. A mais-valia do assalariado é absorvida por ele diretamente. Tratando-se da renda pré-capitalista, na fazenda de café deveríamos estar em presença de duas classes: a do fazendeiro de café (proprietário da terra) e a do pequeno produtor com seus meios de produção e quase independente economicamente. Entretanto, o colono, via de regra, não dispõe dos meios de produção nem é livre economicamente. É em parte ligado à terra (principal meio de produção), planta em ruas puladas o seu cereal, ao mesmo tempo que aluga a sua força de trabalho, cede a sua mais-valia.


Se houvesse um locatário capitalista entre o fazendeiro de café (dono da terra) e o colono ou o camarada, o peão ou qualquer assalariado da fazenda, estaríamos diante do caso da renda diferencial (renda capitalista) e o fazendeiro receberia renda absoluta.


Mas esse locatário capitalista, regra geral, não existe nas fazendas de café. O fazendeiro é ao mesmo tempo latifundiário e capitalista. Como latifundiário ele se apropria da renda-trabalho e de toda a renda pré-capitalista. Como latifundiário, sem nenhum intermediário capitalista, ele se apropria de toda a renda da terra, inclusive da renda que deveria ser absorvida pelo capitalista intermediário se houvesse. Como é ele próprio o capitalista, o que investe o capital na terra, paga salário, etc., a renda resultante do trabalho do assalariado, bem como o lucro médio, isto é, a quota de lucro médio, tudo ficará para ele. Isto quer dizer que um fazendeiro de café como latifundiário e capitalista se apropria como único senhor de toda a renda da terra, da renda capitalista desde a absoluta à diferencial, da renda pré-capitalista e de todo o lucro do capital.


Em sua Economia Política, Leontiev, citando Lênin, diz que:


"A teoria da renda pressupõe que toda a população agrícola tenha sido dividida completamente em latifundiários, capitalistas e trabalhadores assalariados. Este é o ideal do capitalismo, mas não significa a realidade".


E Leontiev acrescenta em seguida, com palavras suas:


"Na realidade as coisas são muito mais complicadas. Não obstante, a teoria da renda mantém toda a sua força, mesmo nas mais complicadas circunstâncias. Acontece freqüentemente na sociedade capitalista que o latifundiário não arrenda a sua terra a outrem mas aluga ele mesmo sua terra a trabalhadores assalariados para que nela trabalhem. Ele se torna, então, a um só tempo, latifundiário e capitalista. Como proprietário, ele recebe a renda, e, como capitalista, o lucro do capital invertido. Neste caso, renda e lucro vão para o mesmo bolso". – (Leontiev, Political Economy – International Publishers – Nova York – Cap. VII – pág. 150)


Não cabe aqui a objeção de que isto se passa em país capitalista, pois, embora o Brasil seja um país subdesenvolvido, semicolonial e semifeudal, já vimos que toda sua história é parte da evolução da economia capitalista mundial e sob esse aspecto não foge às suas leis.


Além do mais esse próprio fenômeno, característico das fazendas de café, é mais uma demonstração do caráter semicolonial e semifeudal do país. Só num país de fortes revivescências feudais seria possível, numa só peça, a junção de dois elementos tão opostos como o latifundiário e o capitalista, para uma exploração tão brutal como a das fazendas de café. E só em tais condições seria possível, ao lado de tal fenômeno, processar-se outro, em sentido inverso, mas igualmente curioso: o do colono explorado, que reúne, a um só tempo, no mesmo elemento, o homem "liberto" dos meios de produção, o assalariado, e o homem jungido às formas de exploração feudais e semifeudais, produzindo renda-trabalho, percorrendo toda a gama da renda pré-capitalista, produzindo renda diferencial e absoluta e enchendo o fazendeiro de lucros. Escravo ao mesmo tempo do regime do salariato e do feudalismo, não é proletário e ao mesmo tempo o é; não é um servo e ao mesmo tempo o é. A condição para que se afirme como proletário, ainda quando sujeito a um contrato com o fazendeiro, é que receba o seu salário em dinheiro. Isto, porém, nem sempre acontece. Dado que a produção de café é mais destinada ao comércio exterior e a servir aos interesses do imperialismo e dos grandes fazendeiros, pouco contribui para o desenvolvimento do meio circulante no campo. O fazendeiro prefere fazer correr o seu dinheiro nos centros urbanos. Para o colono reserva o vale, um pedaço de papel, o bororó, o cascudo, complemento da instituição do armazém ou do barracão, remanescente do feudalismo, que aniquila de vez o caráter "livre" da força de trabalho do colono.


O colono situa-se assim na condição de um semiproletário.


Uma tal situação, influindo em prejuízo do nosso desenvolvimento geral e contribuindo para entravar as forças produtivas, vem mostrar com clareza a força da renda pré-capitalista em todas as nossas relações agrárias.


Mas, seria falso não acentuar que, no estágio de desenvolvimento em que nos encontramos, a renda capitalista, seja a absoluta, seja a diferencial, constitui já parte sensível na exploração no campo.


É evidente, como já vimos para o caso das fazendas de café, que a renda capitalista não corresponde à coexistência de latifundiários, locatários capitalistas e assalariados agrícolas como classes independentes. Nesse caso, aqui, a renda capitalista constitui um reforço da classe dos latifundiários e da fabulosa fortuna que acumularam.


O fazendeiro de café, por exemplo, acumula todas as formas de renda pré-capitalista e mais a renda capitalista absorvida para si, amealhando uma riqueza individual considerável (gasta nos grandes centros urbanos), geralmente não concorrendo para qualquer passo adiante na economia agrária ou para a elevação total da fazenda à categoria de um empreendimento capitalista do campo, restringindo a circulação de mercadorias e o incremento do valor de uso e de troca, impondo às forças produtivas entraves feudais insuportáveis.


A renda capitalista, todavia, significa penetração do capitalismo no campo.


Isso quer dizer que, apesar de tudo o que resta de feudal na fazenda de café e de todo o fator de atraso que isso ainda representa, ela constitui também uma penetração capitalista no campo.


Para onde evoluirá? Esta é uma questão importante se quisermos analisar o sentido do desenvolvimento de nossa economia agrária e buscar as leis por onde nos deveremos reger para apressar e aprofundar a solução da questão agrária.


Sob a pressão da luta de classes no campo, os fazendeiros não ocultam sua inquietação diante do aguçamento das contradições entre as atuais relações de produção e as forças produtivas.


Os colonos lutam cada vez mais, intensificando a resistência à terrível exploração dos fazendeiros.


As lutas dos colonos têm se travado em torno das reivindicações específicas do proletariado, dada sua situação de semiproletários. Isto quer dizer que estando sujeitos a formas de exploração semifeudais e capitalistas, os colonos vêm exigindo as reivindicações que decorrem de sua exploração como assalariados. As greves que têm desencadeado reivindicam aumento nas colheitas, aumento nos contratos, na carpa, na derriça, pagamento de férias, de salários atrasados e assim por diante. Nesta luta são acompanhados por todos os outros assalariados das fazendas de café.


Quando a resistência dos colonos se manifesta através das greves, torna-se visível pela recusa a aceitar os onerosos contratos dos fazendeiros. Os colonos abandonam as fazendas e procuram novas regiões, novas zonas onde empregar a sua força de trabalho. Nisso são tentados pela concorrência do salário industrial nas cidades, mais elevado que os salários no campo. As cidades constituem em si um grande foco de atração. E onde surgem terras mais férteis há sempre a possibilidade da afluência dos colonos, como dos camponeses em geral, esperançosos num rendimento agrícola maior.


A crescente resistência dos colonos tem provocado diferentes reações nos fazendeiros. O contrato já não tem a mesma solidez que garantiu a fortuna dos velhos fazendeiros das primeiras décadas da República, na fase que precedeu o craque de 1929. Torna-se difícil manter essa solidez, por força dos golpes desferidos com as lutas dos colonos e em conseqüência de novas circunstâncias materiais. Até mesmo manter o sistema de fiscalização do trabalho do colono, tão característico da fiscalização do senhor feudal sobre o servo, encontra obstáculos maiores. E já não surte efeito a ação dos capangas armados, resto da ordem feudal, ou a brutalidade da polícia, fruto da ordem capitalista.


O colono como fenômeno da importação de braços do estrangeiro para a lavoura cafeeira, que da parceria, onde entregava a renda-produto ao fazendeiro, passou para a condição de semiproletário, empreende sua trajetória para o proletariado rural. Fugindo da renda-trabalho, procura o salariato, ou melhor, nele é atirado, perdendo toda e qualquer ilusão de tornar-se arrendatário, sitiante, produtor direto independente. Até aqui sua sorte não diferia daquela dos volantes, camaradas ou peões, senão numa permanência um pouco maior nas terras da fazenda, com os olhos fitos no plantio do vão. Mas ele será cada vez mais erradicado da terra. O monopólio da terra comprimiu-o, esmagou-o. Daqui por diante, o colono lutará cada vez mais pelas reivindicações proletárias.


Os fazendeiros que não se conformam com a perda da renda pré-capitalista lutam por estabelecer um tipo único de contrato para o colono, querem estabilizá-lo na condição de escravo ou de servo, reclamam um código rural drástico, uma espécie de fôrma bem apertada de onde o colono não possa sair. Estes são os piores cegos. São os que não querem ver que o colono não poderá ficar sujeito a "leis eternas". Outros acenam com a volta ao regime da meação. Há grandes fazendeiros que diante da recusa do colono às asfixiantes condições dos contratos, entregam seu café à meia, contentando-se com a renda-produto, obrigados a renunciar em parte às vantajosas limitações que lhes dá o regime semifeudal, semiproletário do colonato.


Mas há também os que tendem para novas formas de exploração através do regime do salariato. Estes pensam resolver a situação pelo caminho do capitalismo. Sentem o fim do regime semifeudal do colonato. Inclinam-se por isso a substituir a enxada primitiva pela enxada mecânica ou pelas carpideiras. Propõem-se a só contratar assalariados. Daí decorre algo de novo. As condições materiais estão gerando um novo tipo rural. Surge a figura do empreiteiro, trabalhador assalariado para a carpa, a derriça, o trato do café, a abertura de covas, a formação do café. Em alguns lugares já este novo tipo rural é chamado de empreiteiro anualista, recebe em dinheiro pelas tarefas que executa, tem assegurado o seu dia de serviço por uma determinada quantia em dinheiro. Muitos colonos passam a esta categoria.


Estamos, assim, em face do empreiteiro individual, do assalariado agrícola destinado a substituir o colono, a encerrar o regime misto do salariato e da renda pré-capitalista, para, em seu lugar, colocar o salariato. Nas zonas novas, a figura do empreiteiro individual já tem um alcance mais amplo, prenunciando a extensão com que passará a ser utilizado daqui por diante, sem nunca, porém, anular o terrível grau de exploração a que serão sempre submetidos os trabalhadores do campo, enquanto perdurar o monopólio da terra. Por meio de contratos verbais, já se empregam empreiteiros individuais a troco de míseros salários para derrubar, roçar, covear, ganhando em dinheiro por alqueire. (1) A liberdade de que gozam para alugar sua força de trabalho leva-os a se endividarem com os comerciantes para comprar as ferramentas e garantir as primeiras despesas na terra, e é assim que começam, acorrentados ao capital usurário, depois de terem emigrado de outras zonas, sobretudo de Minas.


Tal regime de empreita individual de serviços cria, entretanto, novos perigos para o fazendeiro, perigos que tanto tem procurado evitar. O primeiro deles é a ameaça de estender ao campo a legislação trabalhista, reivindicação que já começa a tornar corpo. Para fugir a este espantalho e assegurar a instabilidade do trabalhador agrícola, o que lhes faculta escapar à legislação, os fazendeiros recorrem a outro tipo de empreiteiro, que empreita o trato de tantos mil pés de café ou a carpa do cafezal e, em caso de zonas novas, empreita derrubar e roçar a mata, covear, etc. Para isso contrata o peão e lhe paga por dia (livre) ou desconta a comida.


O empreiteiro de turmas que empreita a derrubada da mata, roçar e covear com turmas de trabalhadores (peões) nas zonas novas nada tem a ver com o empreiteiro individual. Aquele tipo de empreiteiro conhecido no norte do Paraná como gato, pelos passes de mágica que faz para roubar o trabalhador, é um intermediário capitalista do campo, aliado ao latifundiário e ao capital comercial e usurário. Explora turmas de trabalhadores de 10 até 40 homens, a quem paga salários miseráveis e a quem rouba com o fornecimento de víveres. A figura do empreiteiro das derrubadas das zonas novas é inseparável da figura do peão, que é o verdadeiro assalariado individual, nesse caso. O empreiteiro desse tipo suga a mais-valia do peão e é daí que provém o seu lucro, com o que poderá chegar a ser sitiante e até fazendeiro rico. Sem dúvida, é um aventureiro que não deixa de ter contradições com o latifundiário que o contrata, mas na maior parte, poderíamos dizer na totalidade das vezes, é um agente do latifundiário, aliciando o peão assalariado para a empreitada estafante de desbravar o terreno, derrubar a mata, preparar as condições para a exploração da futura fazenda. Isto se fará seja pelo trabalho assalariado, através do semeador, trabalhador por conta do fazendeiro, que ganha salário para semear em cada cova, ou através do formador de café individual, (misto de semeador e formador às vezes) também ganhando salário, e cuja missão é entregar ao fazendeiro o café formado.


O formador de café (individual) não passa de uma espécie de colono adaptado às condições das zonas novas, onde, depois de derrubado o mato, roçado e coveado, é preciso plantar o café.


O formador de café (individual) não é um tipo rural destinado a substituir o colono com o salariato e não se confunde com qualquer dos 2 tipos de empreiteiros já analisados (o individual ou o de turmas). O formador de café (individual) tem contrato por prazo fixo (4 anos). Ganha em dinheiro de acordo com o contrato, por covas de café, mas sujeito como colono a formas semifeudais de exploração, sugado em sua renda trabalho, obrigado a consertar estradas e a formar pasto sem nada receber para isto, e com um aparente direito a ter criação e mangueirão, direito que jamais lhe é concedido pelo fazendeiro. Por último, quando o café está formando bem, o fazendeiro tudo faz para jogá-lo fora da terra e o consegue por meio de pirraças ou pela violência, sem aguardar o término do prazo de 4 anos do contrato.


Daí em diante o fazendeiro continuará a explorar o colono ou o empreiteiro individual que venha a substituir o colono no trato e na colheita do café.


O esboço deste quadro é de inestimável valor, porém, para se compreender que a desintegração do regime do colonato e sua passagem ao salariato pela via do empreiteiro não significa a eliminação dos restos feudais e do capital usurário, a liberdade para o trabalhador do campo e o melhoramento de suas condições de vida. Os fazendeiros realizam esforços desmedidos para fazê-lo crer, mas o aumento do êxodo rural, o crescimento da fome e da miséria no campo são um testemunho em contrário.


É evidente que este caminho não leva à emancipação do colono e apenas modifica a forma de exploração, sem levar a uma profunda modificação nas relações de produção, só possível com a quebra do monopólio da terra.


A evolução do colonato para empreiteiro individual ou para o sistema do empreiteiro com turmas de peões a seu serviço exige outras considerações. O empreiteiro individual é mais "livre" que o colono, é um assalariado desligado dos meios de produção. Toda a forma de serviço de empreita individual ou da empreita por turmas implica o divórcio do assalariado com os meios de produção, a fim de tornar "livre" sua força de trabalho. Em face do contrato, das obrigações de caráter semifeudal e dos encargos da família que com ele compartilha dos deveres para com a terra e o senhor da fazenda, tem o colono menos liberdade de escolher o patrão do que o volante, o camarada, o peão, o empreiteiro individual mais habituados a pôr o saco nas costas e a alugar sua força de trabalho onde melhor lhes aprouver. Isto constitui sensível diferença entre o primeiro e os segundos e dá a estes últimos uma espantosa mobilidade e uma instabilidade jamais vista.


Tudo isso, porém, se pode facilitar a substituição do colono pelo empreiteiro, não determina e não pode determinar o desaparecimento do velho tipo rural do colono, destinado a coexistir com o empreiteiro enquanto existirem zonas novas onde a fertilidade da terra compensar a ausência dos adubos e dos meios mecânicos e fizer esquecer o rigor dos contratos. Além do mais, o tipo rural do empreiteiro mal começa a desenvolver-se. A maior parte das fazendas de café (88%) continua a ser tocada por colonos e é isso mais uma prova da força dos restos feudais.


Do ponto de vista da análise teórica da renda territorial, o aparecimento do empreiteiro não altera a condição de latifundiário e capitalista do fazendeiro de café. O novo tipo rural do empreiteiro é apenas a mais recente aquisição do latifúndio em aliança com o capitalismo, num país cuja agricultura é ainda um apêndice do imperialismo americano. Explorando o empreiteiro, o fazendeiro continua a absorver todo o lucro e toda a renda da terra, da renda pré-capitalista à renda capitalista. Quando contrata o empreiteiro individual, o fazendeiro, sem intermediário capitalista, se apropria de toda a renda da terra. Quando contrata o empreiteiro por turmas, surge um intermediário capitalista, que logo é afastado, assim que termine o serviço empreitado, dispersando-se os peões em busca de novos mercados para a sua força de trabalho. A exploração por parte do fazendeiro continua então sob as mais variadas formas, não importando se é feita com a utilização de colonos ou outros trabalhadores. Em nada disso se modifica a propriedade da terra, o fazendeiro continua sendo o único apropriador de toda a renda.


Isto se dá também em face de outro tipo de empreiteiro, comum nas zonas novas. Trata-se do empreiteiro formador de café, que não se confunde com o formador de café individual, assalariado, que tem contrato com o fazendeiro no máximo por 4 anos.


O empreiteiro formador de café difere do formador de café individual, por não ser um assalariado como este, cuja condição, como já vimos, mais se aproxima à do colono. Pelo fato de não ser um assalariado, o empreiteiro formador de café também nada tem de parecido com o empreiteiro individual, de quem difere radicalmente. Entretanto, no que diz respeito ao empreiteiro por turmas, o empreiteiro formador de café tem semelhanças mas apresenta também diferenças radicais. O empreiteiro formador de café tem a seu serviço turmas de peões como o empreiteiro por turmas. Um e outro alugam, portanto, força de trabalho. Um e outro têm que empregar capital. Trata-se de capitalistas do campo. Um e outro têm que manter determinadas relações com o fazendeiro. Aqui começam as diferenças. O empreiteiro por turmas alicia trabalhadores, recebe do fazendeiro uma determinada quantia em dinheiro pela empreitada que assume. Ele é um agente do fazendeiro, explora os peões, arranca-lhes a mais-valia, tira daí o seu lucro. Empregando o empreiteiro por turmas, o fazendeiro utiliza um intermediário, uma espécie de funcionário seu, que também tem capital, que também explora através do capital comercial e da usura, através do buteco e do fornecimento. Isto é uma forma de empregar capital na terra (derrubar o mato, roçar, covear, etc.). O emprego deste capital, com o empreiteiro como intermediário, reverterá mais tarde em forma de renda diferencial e absoluta, de mistura com a renda pré-capitalista, assim que a fazenda começar a produzir para o seu único e exclusivo proprietário – o fazendeiro.


Com o empreiteiro formador de café é diferente. Ele não é um agente do fazendeiro. Ele é um capitalista que recebe a terra do fazendeiro para derrubar, roçar, covear, semear, formar o café, tratar o café até às primeiras colheitas. Para isso o empreiteiro formador de café realiza um contrato por 6 anos com o fazendeiro. É evidente que se não tivesse capital não poderia fazer este contrato. Com o capital que possui o empreiteiro formador de café paga os salários dos peões e trabalha a terra. Portanto, quem inverte capital na terra é o empreiteiro formador de café, que se comporta como um locatário capitalista, embora sem pagar qualquer aluguel ao fazendeiro durante os 6 anos do contrato. O fazendeiro, com isto, dispensa o empreiteiro formador de café do aluguel da terra, para que este capital seja diretamente empregado na terra. O fazendeiro não sofre nenhum prejuízo com este sistema, uma vez que, depois de 6 anos, a terra volta às suas mãos com o café plantado, as colheitas anuais e todas as benfeitorias. Quer dizer: depois de 6 anos sem receber aluguéis, o fazendeiro receberá a terra com os aluguéis e o capital empregado, apropriando-se ainda mais de toda a renda. O empreiteiro formador de café emprega seu capital na terra, contando nos 6 anos de contrato tirar o máximo, isto é, o fruto de 3 colheitas de café (a primeira aos 4 anos, a segunda aos 5 e a terceira aos 6), e a renda e o lucro do trabalho dos peões a quem paga o salário. Todo o interesse do empreiteiro formador de café está na prorrogação dos contratos e luta por isso para que os contratos de 4 anos se estendam a 6. O fazendeiro procura reduzir o tempo de permanência do empreiteiro formador de café na terra, para começar mais cedo a receber a renda e o capital invertido na terra. Procura, assim, reduzir o número de colheitas que o empreiteiro formador de café reivindica como recompensa do capital empregado, e, nos atuais contratos, encurtados para 4 anos, suprime automaticamente duas colheitas. Na base das relações entre o dono da terra e o empreiteiro formador de café estão profundas contradições, cujas raízes mergulham no monopólio da terra. O empreiteiro formador de café pode apenas ter como sua a terra num curto espaço de tempo de 6 anos. Depois disso terá que abandoná-la e recomeçará pelo mesmo caminho em novas terras à espera das derrubadas. Raramente o empreiteiro formador de café alcançará a posse com o fruto das primeiras colheitas do café por ele formado. Pior, entretanto, é a situação do peão, o verdadeiro criador de toda a riqueza das zonas novas do café, e cuja força de trabalho é a fonte de toda a renda e lucro do latifundiário. O peão, explorado pelo empreiteiro formador de café, vegetará todo o tempo na terra e nem ao menos terá a sensação da posse provisória que o fazendeiro concede ao intermediário capitalista.


Esboçado o quadro da apropriação da renda territorial, capitalista e pré-capitalista, pelo fazendeiro de café, misto de latifundiário e capitalista, podemos passar ao problema da renda obtida do trabalho do proletariado agrícola e do semiproletariado no campo.


II. A Renda da Terra na Cultura da Cana


A usina de açúcar e a fazenda de café, constituindo dois tipos clássicos da penetração do capitalismo no campo (nas condições particulares do desenvolvimento histórico do Brasil) não se confundem. É manifesta a superioridade da usina de açúcar sobre a fazenda de café como empreendimento capitalista.


Esta superioridade advém de que o usineiro não se limita como o fazendeiro de café ao emprego do capital na terra ou nas máquinas e meios que melhoram a terra. O usineiro de açúcar antes de mais nada emprega o seu capital nas máquinas que transformam a cana em açúcar. O usineiro é um industrial do campo, o que não acontece com o fazendeiro de café. Sem dúvida a condição de industrial, como veremos, não lhe tira a de latifundiário, mas sua razão de ser está no capital que emprega nas máquinas, na usina. Nesse sentido, a usina encarna com nitidez a união entre a agricultura e a indústria.


Como empreendimento capitalista a usina exige o trabalhador assalariado, independente dos meios de produção, apto a alugar sua força de trabalho. Trata-se do mecânico, do foguista, do eletricista, do assalariado da moenda e da destilaria, de toda uma legião de operários recrutados dentre os melhores trabalhadores da lavoura ou importados das cidades mais próximas.


Sugando a mais-valia desses operários, o usineiro consegue reunir seus imensos lucros. Até aqui não se trata da renda da terra, e só do lucro industrial. A renda territorial começa a vir para o usineiro quando à usina este acrescenta as enormes plantações de cana de sua propriedade. A expansão da usina pela terra, visando o plantio da cana para o seu abastecimento, leva-a sobretudo no sul do país à criação de outras lavouras (café, arroz, algodão), sem o que não tiraria o máximo da renda territorial. O usineiro, sendo ao mesmo tempo um latifundiário, explora em suas terras o colono do café, o arrendatário do algodão e do arroz e nisso não difere do fazendeiro de café ou qualquer outro latifundiário, nem se afasta da regra geral das formas de exploração semifeudais, das limitações de toda a ordem, da manutenção de polícia própria, da utilização do vale e do barracão, meio pelo qual sujeita o trabalhador ao capital usurário e cerceia a circulação do dinheiro. Vai assim para as mãos do usineiro toda a renda pré-capitalista tal como para o fazendeiro de café. E quando se trata da plantação da cana, as relações econômico-sociais não são de ordem muito diferente. O colono da cana, tal como o colono de café, é um semiproletário amarrado aos contratos, consumindo suas energias para que o usineiro lhe arrebate o trabalho suplementar, a renda-trabalho, a renda-produto, toda a renda pré-capitalista. Suga-lhe também a mais-valia. Os restantes serviços nas plantações de cana na usina são por meio de empreitada e a figura do empreiteiro é aí comum. Os formadores de cana (como os formadores de milho e arroz), os cortadores de cana, os que realizam serviços de carga, transportes, etc., são empreiteiros individuais, recebem salário por empreitada. A categoria do empreiteiro é inteiramente identificada à dos tratoristas e dos trabalhadores da usina, assalariados de quem o usineiro rouba a mais-valia, e cujas lutas são desencadeadas em torno de reivindicações específicas do proletariado (salários, férias, etc.).


Isso não exclui que a terra seja entregue em certas plantações ao arrendatário da cana, tipo de pequeno arrendatário a porcentagem, sujeito à exploração da renda-produto. Mas o tipo rural do empreiteiro predomina nas plantações de cana dos usineiros do sul, levando de vencida o colono que em muitas plantações de cana das usinas não mais existe, e tomando o lugar a outros tipos rurais.


O fato de o usineiro ser um empresário agrícola assalariando o braço trabalhador indica que, além do lucro que ele tira do trabalho dos operários da usina, obtém uma renda proveniente do maior ou menor rendimento que o trabalhador agrícola obtém nas terras da usina com o plantio da cana. Esta é a renda diferencial. Mas, como proprietário da terra monopolizada por ele, o usineiro ainda se apropria de uma parte da mais-valia excedente do lucro médio. É a renda absoluta. Tudo isso deve ser somado à renda pré-capitalista absorvida com a exploração de outros tipos rurais que emprega, como no caso do colono da cana.


Outra maneira característica do usineiro de açúcar se apropriar da renda pré-capitalista, ao contrário do fazendeiro de café que tira esta renda especificamente do colono, está na exploração que faz do fornecedor de cana dependente, sem terra. Ele é um arrendatário da cana, trabalhando na terra da usina, pagando uma renda que no Nordeste corresponde de 15 a 30% da produção bruta de canas.


O usineiro apodera-se da renda-produto proveniente do trabalho suplementar do arrendatário da cana.


Mas o fornecedor de cana poderá ser independente, uma vez que possua terra própria, não pertencente à usina. Nesse caso são inteiramente diversas as relações entre ele e o usineiro.


O fornecedor de cana independente tem transação com o banco, tem crédito, tem que ter capital e em geral pega o maior comerciante para fornecedor de seus trabalhadores, isto é, para fornecer-lhes alimentos, ferramentas, etc. À vezes, o fornecedor de cana reside na cidade; outras vezes, é também comerciante; outras vezes ainda, em suas terras, também planta café. Entre os que nela trabalham figuram arrendatários, pagando não raro 50% da produção bruta ao dono da terra, o que corresponde a uma renda tão elevada como a meia.


O fornecedor de cana independente é o capitalista do campo que emprega seu capital na cultura da cana e que arranca do arrendatário a renda-produto ou do trabalhador rural a mais-valia, que lhe faculta a renda diferencial, segundo o maior ou menor rendimento agrícola por alqueire, O fornecedor de cana independente (independente de nome) é um camponês rico (um fazendeiro rico se quisermos) explorando o camponês dependente e o trabalhador agrícola.


No Nordeste e em outras regiões açucareiras do país é um tipo rural importante. Seus interesses estão em choque com os dos usineiros, que o procuram subjugar e explorar.


O fornecedor de cana independente travou a mais extensa e prolongada luta contra o usineiro no Nordeste, mas teve de perder a condição de fornecedor dos próprios engenhos e bangüês. Hoje está rebaixado à condição de fornecedor de cana e nesse sentido se pode dizer que perdeu realmente a antiga independência, agora limitada apenas à posse da terra. O aparecimento da usina de açúcar, constituindo uma forma de penetração do capitalismo no campo, abalou a antiga classe dos senhores de engenho e bangüeseiros no Nordeste e fendeu com isso a solidez do seu patriarcalismo.


A circunstância de possuir capital e crédito no banco, em nada, porém, consolida as posições desses fornecedores de cana. O usineiro se afigura como a força maior; arrebatou as terras a muitos deles e ainda os comprime e ameaça, fazendo-lhes perigar os restos de independência.


Em seu socorro esses fornecedores de cana contam somente com o Estatuto da Lavoura Canavieira.


Enquanto a tendência da usina é a concentração agrícola-industrial, tendência nítida da penetração capitalista no campo, que assegura a vitória da indústria sobre a agricultura, sem entretanto eliminar os restos feudais, o Estatuto da Lavoura Canavieira se opõe a essa concentração. Estabelecendo a separação entre a atividade agrícola e a indústria, reservou para os fornecedores de cana independentes um certo número de quotas de fornecimento às usinas, com o objetivo de evitar a expansão da usina sobre a totalidade das terras dos fornecedores, fadados ao desaparecimento.


No jogo das contradições que a usina suscitou no campo, o Estatuto da Lavoura Canavieira desempenha o papel de um instrumento de defesa dos fornecedores de cana, antigos senhores de engenho, numa clara manifestação da força que ainda têm na superestrutura do país os restos das classes dominantes do sistema pré-capitalista.


Criando, porém, o regime de quotas para impedir o aniquilamento desses fornecedores de cana, o Estatuto da Lavoura Canavieira forneceu ao usineiro exatamente a arma de que precisava para aniquilá-los.


É com o cabresto das quotas que o usineiro domina e explora o fornecedor de cana. Mas, ao mesmo tempo, lhe completa a asfixia manejando esta outra arma – a balança, que o rouba no peso e lhe reduz a independência.


Os aspectos dessa luta se complicam com as contradições entre o expansionismo das usinas de açúcar do Sul em luta contra as limitações que favorecem as usinas do Nordeste. Mas passemos de largo sobre essas contradições. Voltemos aos aspectos que interessam no estudo da renda da terra na cultura da cana.


O usineiro apropria-se do lucro e de toda a renda capitalista e pré-capitalista resultante do trabalho dos tipos rurais da cana. O fornecedor de cana dito independente, resto da antiga classe dos senhores de engenhos, fazendeiro rico da cultura de cana, apropria-se de todo o lucro e de toda a renda dos que trabalham em suas terras. O fornecedor de cana, porém, não tem a usina. Ele é obrigado a fornecer seu produto ao usineiro. O caráter monopolista da usina, a força do capital invertido em suas máquinas, a extensão territorial de sua propriedade a que se incorporam sempre e cada vez mais novas áreas, tudo isso assegura a superioridade da usina sobre o fornecedor de cana neste combate desigual. É assim que uma parte da renda dos lucros absorvidos pelo formador de cana vai para as mãos do usineiro que, por esta forma, se apodera de uma parte da mais-valia e da renda produzida pelos trabalhadores nas terras do fornecedor. Quando a última resistência do fornecedor de cana for vencida, já não restará aos trabalhadores nas terras do antigo fornecedor outro recurso senão o da exploração direta pela usina. O monopólio da usina sobre a produção e sobre a terra é um sério fator de encarecimento do produto e de aniquilamento das forças produtivas.


A análise teórica da renda territorial no caso da fazenda de café e da usina de açúcar, servindo para estabelecer pontos de contato e diferenças entre uma e outra, nos leva, entretanto, a mostrar o papel importante da renda pré-capitalista, sobretudo nas fazendas de café, onde a composição orgânica do capital é mais fraca do que nas usinas. Isso fortalece a convicção de que os restos feudais predominam em nossa economia agrária e encontram sua principal fonte no monopólio da terra, tão fortemente apoiado pelo imperialismo para facilitar seu domínio sobre toda nossa economia e o nosso povo. Não obstante, já há penetração capitalista no campo, e ela se manifesta na renda absoluta ou diferencial produzida pela exploração da mais-valia do proletariado e semiproletariado rurais.


III. A Renda da Terra na Cultura do Algodão


Vejamos em seguida o que se passa na cultura do algodão, que tipos de renda aí predominam, até onde se estendem os restos feudais, até que ponto existe uma penetração capitalista, até onde o monopólio da terra facilita o domínio do imperialismo.


A cultura do algodão é feita à base do arrendamento da terra, que cria o tipo rural do arrendatário e estabelece na lavoura algodoeira relações econômico-sociais de tipo inteiramente diverso das da fazenda de café ou usinas de açúcar.


O latifundiário se apropria da renda-produto na lavoura do algodão quando em troca de produtos arrenda a sua terra ao pequeno arrendatário, ao arrendatário pobre, que não pode tocar mais de 4 alqueires com a sua família e que não pode contratar nenhum trabalhador para ajudá-lo. O tipo rural do arrendatário pobre sujeita-se a contratos tão extorsivos quanto os do colono do café. Ele entrega o seu produto suplementar ao latifundiário, a maior parte sob forma de renda-produto, o resto sob a forma de trabalho, renda-trabalho.


Lênin caracteriza a renda-produto dizendo:


"A próxima forma de renda é a renda em espécie (Productenrende) quando o produtor direto produz na terra que ele mesmo explora e dá ao latifundiário o total do produto suplementar em espécie. O produtor aqui se torna mais independente e obtém a possibilidade de adquirir através de seu trabalho certa quantidade de produtos acima de suas necessidades" (The Development of Capitalism in Russia – International Publishers, Nova York – 1943 – pág. 103).


O arrendatário pobre da lavoura do algodão, incluído nessa categoria de produtor direto que paga ao latifundiário renda-produto em troca da terra, é o tipo de arrendatário a porcentagem.


Mas ele não está excluído de entrar com a renda-trabalho para o latifundiário, isto é, com o trabalho suplementar, acima do que lhe é necessário. É por isso que nos contratos de arrendamento se estabelecem cláusulas tipicamente feudais, como a prestação de uma diária de serviços por alqueire arrendado e isso, sem nenhuma remuneração, para consertar estradas, além da obrigação de plantar capim, fazer aceiros na mata e outros trabalhos gratuitos.


Nesse sentido, a servidão do arrendatário a porcentagem em nada difere daquela do colono e é tão séria que o arrendatário não pode vender seus produtos livremente no mercado; e, não raro, fica sujeito ao regime de cadeado ou correntes nas porteiras e à vigilância dos capangas do latifundiário.


Encontramos nessas terríveis condições do arrendatário a confirmação das palavras de Marx:


"Conquanto a renda-produto seja a forma imperante e mais desenvolvida da renda da terra, estará mais ou menos acompanhada pelos resíduos da forma antiga, isto é, da renda que se exprimirá diretamente em trabalho, ou seja em servidão, tanto faz que o senhor seja o particular ou o Estado". (O Capital, livro III, Cap. 47, III).


O latifundiário que arrenda sua terra para o plantio do algodão não se limitará a embolsar a renda-produto do arrendatário pobre, a que juntará as sobras da renda-trabalho. Em muitos casos, terá em suas terras colhedores de algodão que receberão salário por este serviço; e, então, se comportará como um capitalista, arrancando mais-valia do proletariado rural e obtendo lucro. Mas fará isto na colheita, quando, então, precisa de assalariados para executar os serviços de que o arrendatário não for capaz de dar conta.


O exemplo típico, entretanto, é o do latifundiário que permanece como tal, vivendo sobretudo da renda-produto do arrendatário. Outras vezes, exigirá dos arrendatários a renda-dinheiro. O arrendamento será pago em dinheiro e não em produto.


Daí surgirá o tipo rural do arrendatário a dinheiro, hoje mais difundido que o arrendatário a porcentagem (2), mas, assim como ele, sujeito toda ordem de restrições feudais e semifeudais, não podendo vender o produto da colheita do algodão senão ao latifundiário em primeiro lugar, sendo obrigado a plantar capim, proibido de derrubar madeira de lei, tolhido da liberdade de plantar, e assim por diante.


As características do arrendatário decorrentes da renda-dinheiro que o latifundiário do algodão apropria permanecem tais e quais Marx as definiu, ao dizer:


"Em vez do produto, o produtor direto tem que pagar aqui ao proprietário da terra (seja este um particular ou o Estado) o preço do mesmo. Já não basta, pois, um excedente do produto em espécie; tem que transformá-lo de sua forma natural em dinheiro. Se bem que o produtor direto continue agora produzindo pelo menos em grande parte sua própria subsistência, tem que converter uma parte de seu produto em mercadoria e produzi-lo como mercadoria". (O Capital, livro III, Cap. 47, IV)


Isso dá idéia do caráter mais elevado da renda-dinheiro, que exige a quebra do isolamento do arrendatário em relação ao estado social, e pressupõe um nível alto de troca e de circulação monetária. Entretanto, o fato de a terra constituir um monopólio do latifundiário leva-o a restringir o mercado de que poderia servir-se o arrendatário para trocar sua mercadoria por dinheiro e isso não se dá por acaso. É que o latifundiário visa ele próprio realizar essas trocas com o arrendatário, pagando-lhe pela mercadoria um preço inferior ao do mercado, com o que aumenta a parte da renda-dinheiro que lhe é devida pelo produtor.


O latifundiário do algodão simboliza o oposto do fazendeiro de café e do usineiro. Enquanto estes encarnam a aliança da terra com o capital e sintetizam, nas condições do nosso desenvolvimento, a fórmula trinitária de Marx, o latifundiário do algodão isola-se na terra e é dela somente que aspira extrair a renda, erguida sobre a fome e a miséria de milhões de arrendatários.


Sua propriedade territorial será a sua fazenda; ele próprio será denominado fazendeiro, mas não haverá equivalência entre uma fazenda de algodão (com o seu fazendeiro) e uma fazenda de café (com o tipo rural do fazendeiro de café).


Tratamos até agora da renda pré-capitalista produzida pelos arrendatários pobres e apropriada pelo latifundiário ou fazendeiro do algodão. Continuemos.


Em determinadas fazendas se fazem contratos de parceria, mas o que aí se denomina parceiro não é, no caso, mais do que o arrendatário a porcentagem ou o arrendatário a dinheiro, produzindo renda-produto ou renda-dinheiro. O verdadeiro tipo rural do parceiro é diferente desses tipos de arrendatários. Um deles é, por exemplo, o que entrega a terça, o terceiro. Mas ainda aqui se trata da renda-produto O mesmo se dá com o meeiro, que é outro tipo de parceiro. A diferença é que o preparo da terra, os animais, as sementes, o veneno e a colheita são por conta do terceiro. O meeiro recebe a semente e a terra preparada. Mas tanto o arrendatário pobre, quanto o terceiro e o meeiro dão ao fazendeiro a renda-produto.


Às vezes, entre o latifundiário e esses tipos rurais surge um tipo rural intermediário, o arrendatário médio.


O tipo rural do arrendatário médio é menos freqüente. Este tipo corresponde ao daqueles camponeses que, possuindo alguma reserva conseguida com o trabalho de sua família, contratam para trabalhar na terra que arrendam ao latifundiário um ou outro trabalhador ou cedem uma parte de sua terra à meia ou subarrendam. Surge assim o tipo rural do subarrendatário. Mas o aparecimento de um novo tipo rural na extremidade inferior da escala não significa outra coisa senão que sendo insuficiente o produto suplementar do arrendatário, a ele se junta o do subarrendatário, apropriando-se o latifundiário, então, de toda a renda-produto.


Em qualquer dos casos, seja a terra do latifundiário arrendada pelo arrendatário pobre ou pelo arrendatário médio (que pode arrendar terras acima de 4 alqueires até 10 ou 12 alqueires), o latifundiário luta para que os contratos tenham curta duração (um ano no máximo), enquanto os arrendatários estão sempre a reivindicar a prorrogação dos contratos. Esta contradição assenta suas raízes em que o arrendatário pobre ou médio sempre emprega trabalho ou capital na terra e que é isso que dá valor ou melhor lhe dá o preço. Quanto mais benfeitorias na terra, tanto mais aumentará seu rendimento, subirá seu preço. Independente de saber a quem pertence a terra, neste caso, dada a sua maior fertilidade, localização, etc., ela produzirá renda diferencial. Interessa ao arrendatário pobre ou médio ter contratos por muitos anos, ficar o maior tempo possível com a terra arrendada, já que de ano para ano irá colhendo melhores frutos do seu trabalho. Fixado de antemão o preço do arrendamento, ele permaneceria estável durante todo o tempo do contrato, quer se tratasse de pagamento em espécie (renda-produto), quer se tratasse de pagamento em dinheiro (renda-dinheiro). Todo e qualquer aumento das colheitas resultantes do aumento do rendimento agrícola ou do maior valor do produto seria para o arrendatário. O latifundiário quer exatamente o contrário. Para ele, a vantagem está em renovar contratos de ano em ano, a fim de exigir sempre ao novo arrendatário um preço mais alto pela terra, o que lhe aumenta a renda, pois o preço da terra é renda posta a juros, é renda capitalizada.


Desta contradição, que o latifundiário resolve a seu favor manejando os privilégios do monopólio da terra e mobilizando as instituições jurídicas, surgem os mais sérios conflitos pela posse da terra. É daí que se origina o despejo, categoria da sociedade baseada no monopólio da terra.


O despejo é a maneira violenta que o latifundiário encontra para assegurar em seu benefício a renda capitalizada em constante progressão.


O interesse oposto do arrendatário pode levá-lo reciprocamente à luta violenta contra o despejo, mas se manifesta de modo crescente na aspiração à baixa do arrendamento. Com isso, procura diminuir o produto suplementar exigido pelo fazendeiro.


Até agora, numa constância rigorosa, temos visto que a renda de que se apropria o latifundiário do algodão é toda ela pré-capitalista, o que dá a este tipo de latifundiário uma série de características diferentes daquelas do fazendeiro de café ou do usineiro de açúcar. Isso distancia o latifundiário do algodão de um empresário agrícola e fornece elementos novos para avaliar a penetração capitalista na lavoura algodoeira.


Quanto ao tipo rural do sitiante, também denominado situante, difere do arrendatário porque não paga arrendamento. Ele compra a terra, a maior parte das vezes a prestações.


Se é um pequeno sitiante, seu lote não irá além de 4 alqueires, que é o que ele poderá tocar com sua família. Se é um sitiante médio, seu lote terá entre 4 e 15 alqueires, que é o que ele pode tocar com sua família e mais um ou outro assalariado, parceiros, arrendatários pobres e subarrendatários.


Não pagando arrendamento ao latifundiário e limitando-se suas relações com ele à compra da terra ou ao pagamento de prestações, o sitiante é um proprietário livre, mas só em certo sentido.


Podemos situá-lo na categoria de que fala Marx, ao tratar da propriedade parcelária:


"O lavrador é aqui proprietário livre de seu terreno, que figura como seu principal instrumento de trabalho, imprescindível para a aplicação de seu trabalho e de seu capital. Nesta forma não se paga arrendamento (renda)". (O Capital, livro III, cap. 47, V).


Mas até onde vai a liberdade do sitiante, proprietário livre terra, que não precisa pagar renda?


Sua liberdade é precária e não apresenta nenhuma segurança ou estabilidade. O latifundiário não renuncia à posse da terra, ainda quando ela é vendida. Levemos em conta que o número dos que possuem pequenos lotes de terra no Brasil (propriedade parcelária) é escasso. O latifundiário prefere alugar sua terra a vendê-la. Novas parcelas de terra estão sendo sucessivamente incorporadas às grandes áreas dos latifundiários, quer por compra, quer por expropriação e despejo dos pequenos proprietários, cujo número decresce cada vez mais. Podemos dizer que milhões de camponeses não têm terra. Cerca de 75% das terras cultivadas só o são pelos arrendatários que não têm terras, e entregam a renda, o produto suplementar do seu trabalho, aos latifundiários.


A escassa minoria dos que possuem terra cai assim sob a dependência dos latifundiários. Em primeiro lugar, a base econômica dos proprietários parcelários, sitiantes pequenos e médios, é muito restrita, a começar pela esfera do crédito, dominado pelo capital usurário.. Em segundo lugar, o capital de que poderiam dispor para empregar nos meios de produção é gasto na compra do terreno, entregue, portanto, ao latifundiário.


Ao vender a terra, o latifundiário capitaliza a renda. Ao incorporar novos domínios e novos lotes de terra, o latifundiário reduz a área de terra posta à venda; com isto, aumenta a procura e aumenta o preço, aumenta a possibilidade de elevar a renda capitalizada. Daí por que o latifundiário prefere alugar a terra, aumentando sempre o preço do arrendamento, sem nunca alienar a posse do terreno.


Quando vende a terra (vende sempre as piores terras), ainda assim lhe resta a possibilidade de expulsar o proprietário, despejá-lo logo após as primeiras benfeitorias e quando ele se atrasar nas prestações. Com isso tornará a vender a terra, por preço mais elevado, pois ela já está beneficiada pelo capital e o trabalho do proprietário expulso.


Para os casos em que o proprietário parcelário tenha melhorado suas terras (já pagas), o latifundiário terá o recurso de propor-lhe a compra por um preço abaixo da renda que ela produz. Aos que resistem, não haverá outra, saída senão a defesa a qualquer preço de sua posse, até pela violência, ou então bater em retirada, acossado pelos capangas e pela polícia a serviço do proprietário feudal. A instituição que resulta de todas essas relações econômico-sociais, na base das quais se encontra a renda territorial que o latifundiário canaliza sem cessar para o seu bolso, denomina-se, grilo, caxixe. Significa, em última análise, o roubo da terra, ou seja o incontrolável crescimento da renda do proprietário feudal e a expropriação interminável, a miséria e a fome dos proprietários parcelários e de toda a massa camponesa.


É nessa instituição que o tipo social do grileiro encontra sua razão de ser, até o dia em que for varrido o monopólio da terra, principal entrave das forças produtivas.


Ainda aqui a renda territorial é absorvida pelo latifundiário, sem que para isso recorra aos métodos capitalistas de exploração. Trata-se da renda territorial obtida por força do predomínio absoluto do monopólio da terra e dos métodos feudais e semifeudais de exploração, conservados religiosamente com a penetração e o domínio do imperialismo no país.


É isso que na cultura do algodão estabelece, ao contrário da usina de açúcar, uma separação rigorosa entre a indústria de beneficiamento do produto e a exploração agrícola.


A primeira, a indústria de beneficiamento do produto tanto quanto a indústria dos subprodutos, conserva-se na mão dos imperialistas americanos (Anderson Clayton e Sanbra(1*)), donos das máquinas, usineiros, industriais do campo, que manejam o capital comercial, monopolizam os produtos industriais destinados à lavoura e absorvem como senhores absolutos toda a matéria-prima.


A segunda, a exploração agrícola, com todos os seus restos feudais e semifeudais, permanece nas mãos do latifundiário. Este possui a terra, mas nada tem a ver com as máquinas.


O estudo da renda territorial na cultura do algodão revela que a penetração capitalista é maior na lavoura da cana e na do café.


O usineiro e o fazendeiro de café desde o primeiro momento, ao lado da renda pré-capitalista, se apropriam do lucro e da renda capitalista, quer sob a forma de renda diferencial, quer sob a forma de renda absoluta.


Não é o que acontece com o fazendeiro de algodão, que prefere entregar suas terras em troca do arrendamento a pequenos arrendatários, quando não adota o sistema da venda de lotes a prestações aos pequenos sitiantes. O proletariado rural na cultura algodoeira cinge-se quase aos colhedores de algodão, e, por isso, como é evidente, o seu mais largo emprego apenas se efetua na época das colheitas. Assim mesmo é na maior parte utilizado pelos arrendatários e outros intermediários da lavoura algodoeira, que pagam a renda da terra ao latifundiário.


Somente agora se começa a falar em substituir o arrendatário pelo assalariado nas fazendas de algodão, mas isso se deve ao temor do latifundiário ante o descontentamento cada vez maior que a alta dos arrendamentos vem provocando.


Além de tudo, o emprego do salariato na cultura algodoeira exige mecanização em larga escala dessa lavoura, o que certamente não será fácil enquanto o algodão brasileiro for concorrente do algodão americano no mercado internacional e o Brasil depender dos Estados Unidos (como depende) para a importação de máquinas e implementos agrícolas. São mais reduzidas, assim, embora não excluídas, as possibilidades de transformação, por essa via, do latifundiário do algodão num empresário capitalista do campo ou, melhor, da junção da categoria de latifundiário à de empresário capitalista, com o que se apossaria da renda absoluta e da diferencial. Entretanto, há fatores novos intervindo na lavoura algodoeira e em tais condições que vêm implicando aparecimento e desenvolvimento da renda capitalista. Muitos latifundiários estão passando do sistema de arrendamento a pequenos produtores para o de arrendamento a grandes intermediários. Esboça-se a tendência para só conceder arrendamentos de 100 alqueires para cima, ao inverso da maioria dos contratos estabelecidos na base de 1 a 4 alqueires (pequenos arrendatários) ou entre 4 e 15 alqueires (arrendatários médios, menos freqüentes).


Sem dúvida, este sistema está levando a criar no campo uma classe de locatários capitalistas, que são os únicos que podem arrendar dos latifundiários lotes de terra de mais de 100 alqueires.


O aparecimento do locatário capitalista, isto é, do arrendatário rico, está condicionado, porém, a mais de um fator, O primeiro deles é a elevada taxa de arrendamento resultante do aumento crescente do preço da terra, que a torna cada vez mais inacessível ao arrendatário pobre.


O segundo fator, que condiciona o aparecimento do arrendatário rico, é o maior emprego de máquinas no campo. Ainda que seja pequeno o emprego de máquinas em nossa agricultura, o mínimo que delas se utilize tem que gerar novas condições. O emprego de máquinas requer capital, um mercado mais amplo capaz de absorver o maior volume de mercadorias que a máquina proporciona. Só o capitalista está em condições de fazê-lo. Mas a terra está em poder do latifundiário e é preciso alugá-la ou comprá-la. Se o capitalista compra a terra e continua a utilizar as máquinas, a tirar a renda capitalista dos seus trabalhadores, transforma-se num empresário agrícola, dono de enormes áreas, sem o que o emprego das máquinas não daria resultado. Se aluga a terra, sua condição é a de um arrendatário rico, um locatário capitalista, que entrega ao latifundiário a renda absoluta.


O terceiro fator que condiciona o aparecimento do locatário capitalista é a existência de amplas áreas de terras para serem alugadas. Não é por acaso que o arrendatário rico surge em zonas como a de Barretos, onde o Frigorífico Anglo monopoliza vastas extensões de terra. Suas terras são alugadas (e não vendidas) com o objetivo de restaurar as pastagens, transformando provisoriamente as invernadas em áreas plantadas com algodão, arroz, milho.


Os contratos de arrendamento, concedidos pelo frigorífico, na sua condição de latifundiário, não vão além de 3 e 5 anos. Mas isto é o bastante para renovar as pastagens, e ao fim desse prazo já o plantio do capim-colonião substitui as antigas lavouras. É um processo mais vantajoso do que o primitivo sistema de roçada. O emprego da máquina nestes vastos campos de pastagem é uma necessidade para o arrendatário rico e uma conseqüência natural da existência das invernadas dos frigoríficos. Não é outro o motivo por que também a zona pastoril de Barretos se transformou no maior centro de agricultura motomecanizada do país, com a média de um trator para cada 40 alqueires plantados, num total de 20.000 alqueires de área cultivada.


Ainda nesse caso, o arrendatário rico substitui o arrendatário pobre que, em outras zonas pastoris, arrendava dos frigoríficos pequenos lotes de 1 a 4 alqueires para, no fim dos contratos, plantar capim-colonião ou ser despejado.


Isto não quer dizer que o arrendatário rico já esteja predominando sobre o arrendatário pobre, que o trator sobrepuja a enxada e o arado puxado a boi, que a renda capitalista esteja mais difundida que a renda pré-capitalista. Revela apenas uma evolução em determinado sentido, uma tendência que não modifica, entretanto, o caráter da nossa produção agrícola, nem elimina o monopólio da terra e a tremenda sobrecarga dos restos feudais.


Há por isso mesmo necessidade de assinalar que o aparecimento do arrendatário rico não corresponde a um crescimento acelerado do proletariado rural. E fora de dúvida que com as máquinas também se cria um certo proletariado no campo. Mas isso só poderá ter certa significação se, ao lado do proletariado exigido pelo maneio das máquinas, desenvolver-se a utilização em massa do trabalho assalariado no campo. Não é o que se dá, e tal fenômeno se explica pela sobrevivência do monopólio da terra, que entorpece o desenvolvimento das forças produtivas.


Além do pessoal das máquinas, tratoristas principalmente, os arrendatários ricos, salvo certas exceções, não lançam mão do proletariado para a exploração da terra. Feita a destoca, nivelado e preparado o terreno, o arrendatário rico o entrega ao meeiro. E à meia que recorre e não ao proletariado rural. Isto estabelece sérias relações de dependência do produtor ao arrendatário rico, sobressaindo a particularidade do meeiro dele receber adiantamentos a juros até de 12% ao ano. A colheita é dividida ao meio, depois dos descontos feitos pelo locatário capitalista. O trabalho suplementar do meeiro vai assim às mãos do arrendatário rico. O meeiro pode lançar mão de assalariados, ter arrendatários pobres e parceiros trabalhando no seu lote. Toda a renda pré-capitalista ou produto da mais-valia que chegar às suas mãos passará para o arrendatário rico. Este pagará por sua vez ao latifundiário a renda absoluta, que é o tributo do monopólio da terra.


De qualquer modo é o monopólio da terra que pesa. E de tal modo que os arrendatários ricos que prosperam logo passam a adquirir terras, transformam-se eles também em latifundiários. É o caso, para citar um exemplo, dos irmãos Lemos, arrendatários ricos de Barretos. Eles arrendam dos frigoríficos quase 2.000 alqueires de invernadas, mas, em virtude dos altos preços dos arrendamentos e da pequena duração dos contratos, encaminharam-se para a compra de vastas extensões de terras em outras zonas. Preferem, assim, transformar-se em latifundiários e empregar as máquinas em seus próprios latifúndios destocando e preparando as terras para entregar à meia e à parceria.


Isso tudo indica que, embora existindo o arrendatário rico, a renda predominante não é a diferencial, o que é resultado da exploração da terra a ser feita pelo meeiro e não pelo proletariado rural.


Estamos aqui em face de uma classe de locatários capitalistas, mas não em face de uma numerosa classe de trabalhadores, "libertos" dos meios de produção, alugando a sua força de trabalho.


Termina aqui a análise do que há de essencial na renda da terra na cultura algodoeira. As rendas que nela predominam são a renda-dinheiro e a renda-produto. Mas o aparecimento do arrendatário rico leva a que do trabalho da terra se obtenha um excedente da mais-valia sobre a taxa de lucro médio. Surgem a renda absoluta e a diferencial, embora a predominância seja da renda pré-capitalista.


É preciso dizer que nas outras culturas de ciclo anual a situação não é diferente. Aliás, o aparecimento do arrendatário rico, nas condições já examinadas, pagando renda absoluta ao latifundiário, obtendo renda diferencial e lucro, não é exclusivo da lavoura algodoeira. E comum que ele, na mesma terra destocada e nivelada pelo trator, também se dedique a explorar o arroz e o milho, utilizando a meia e a parceria.


Isto se explica pelo fato de a máquina só oferecer vantagem se empregada em vastas extensões de terra, uma vez que os meios de produção são propriedade privada.


Quanto mais a lavoura seja custosa e exija inversão de capital, tanto mais campo haverá para o arrendatário rico. E o que se passa com a cultura do arroz. Quer se trate do plantio no seco, onde o trator prepara a terra em larga escala simultaneamente para o arroz, o algodão e o milho, quer se trate do plantio na várzea, onde predominam as drenagens, as obras de irrigação e outras semelhantes, o empresário agrícola, locatário capitalista, tem sempre mais possibilidade de surgir. No entanto, arrendando terras dos frigoríficos ou de grandes companhias (donos de latifúndios), o arrendatário rico só em parte utiliza o proletariado rural, para serviços mecanizados, semimecanizados ou à mão (capina, trilhagem, sega, colheita).


É comum arrendatários ricos usarem o sistema da meia e, não raro, a parceria pela terça e pela quarta parte da produção. Em muitas regiões, a cultura do arroz é feita por pequenos arrendatários e subarrendatários que, ao lado dos meeiros, passam então a constituir a maioria dos produtores.


O aspecto geral da cultura do arroz no país não modifica o aspecto da renda territorial, sabido que só uma pequena parte dessa cultura é mecanizada e mesmo assim não exclui o trabalho de produtores não assalariados.


É evidente que, em tais condições, a renda-dinheiro e a renda-produto, como toda a renda pré-capitalista, têm largo curso, sem que por isso, entretanto, se deixe de registrar a existência da renda absoluta e da diferencial.


De qualquer maneira, porém, o latifúndio domina aqui também e o tributo da renda absoluta se torna um peso insuportável e um freio às forças produtivas.


O caminho da criação de uma burguesia rural pela via do arrendatário rico choca-se com o monopólio da terra, que gera a alta dos arrendamentos e o curto prazo dos contratos. Este tipo de burguesia rural evolui para o tipo rural do latifundiário, torna-se capitalista e proprietário da terra, limitando-se a uma débil utilização do proletariado rural, contentando-se com a renda-produto e em seguida com a renda absoluta e a diferencial, sobre o excedente da quota de lucro.


O outro caminho para a criação da burguesia rural é o da posse da terra, em que o camponês rico cultiva o excedente acima das forças dos membros de suas famílias utilizando o trabalho assalariado. Os empreiteiros formadores de café seguem este caminho, sem conseguir, porém, a posse da terra, que só permanece em suas mãos enquanto dura o contrato (no máximo 6 anos). Entretanto o representante típico da burguesia rural que segue este caminho é o do posseiro ou posseante, de cuja luta pela posse da terra tivemos uma amostra em Porecatu.


O posseiro ou posseante, tipo de camponês rico bem caracterizado, consegue a posse da terra, inicialmente, em geral, nas zonas novas. Realizadas, porém, as benfeitorias terá que defrontar-se com o despejo, a grilagem de terras. Contra ele se voltarão o latifundiário e todo o peso do aparelho de Estado se porventura resistir.


O posseante está destinado a uma luta constante contra o latifundiário e seu complemento, o grileiro. A esperança da posse pacífica da terra o levará a vacilações e concessões nessa luta, mas não conseguirá atingir um pleno desenvolvimento como classe em conseqüência do monopólio da terra.


Quanto à grande massa camponesa, esta terá que vegetar como a grande criadora da renda-dinheiro, da renda-produto e de toda a renda pré-capitalista; irá se diferenciando para a condição de semiproletariado, impossibilitada de chegar à condição de pequeno produtor independente, ou proprietário parcelário. A massa camponesa Vagueará como uma grande massa expropriada, impelida sem cessar para as cidades e para as novas zonas agrícolas, lutando por um pedaço de terra, mas sempre empurrada para engrossar o proletariado rural. As contradições entre as forças produtivas e as relações de produção chegaram a um ponto crucial. Elas nos dão a caracterização no Brasil de um desenvolvimento à moda prussiana, sob a ação e a influência do imperialismo. Avança sem dúvida a penetração capitalista, mas os restos feudais vão sendo conservados e o monopólio da terra zelosamente defendido.


Daí o quadro que deparamos: de um lado os latifundiários e os latifundiários-capitalistas, de outro lado a grande massa de arrendatários pobres, os semiproletários e o proletariado rural, toda a massa de camponeses pobres ao lado dos camponeses médios e da burguesia rural em luta pela posse da terra.


De um lado acumula-se a enorme riqueza dos latifundiários e latifundiários-capitalistas; de outro lado, a miséria e a ruína, a fome e a doença de milhões de camponeses sem terra. De um lado, a renda-dinheiro, a renda-produto, a renda-trabalho, toda a renda pré-capitalista e mais a renda absoluta, a renda diferencial, os lucros, tudo isso arrancado do trabalho suplementar e da mais-valia dos pequenos produtores e trabalhadores do campo sem meios de produção. De outro lado, a pobreza absoluta de toda a população que vive no campo.


Há nisso uma profunda contradição e ela assenta, sem dúvida, no monopólio da terra e no imperialismo. Este, por toda a parte, trata de conservar e eternizar (especialmente no campo) as formas pré-capitalistas de exploração, que constituem a base da existência de seus agentes e aliados. Em tais condições, o estudo da renda da terra nos levará à compreensão da necessidade de abalar ou eliminar o monopólio da terra, o que, ao lado da derrota do imperialismo norte-americano, criará novas condições para o desenvolvimento das forças produtivas. A eliminação do monopólio da terra deverá ser precedida da abolição das formas de renda pré-capitalista, pelo menos da renda-trabalho e da renda-produto. Isto implica resguardar os empreendimentos industriais do campo, extinguindo, porém, as formas feudais de exploração, estendendo a legislação trabalhista ao campo, separando a usina da terra, retirando aos frigoríficos a posse das invernadas, criando a propriedade parcelária, baixando o arrendamento, prorrogando os contratos de arrendamento, incrementando o crédito agrícola e dando fim ao capital usurário, assegurando a posse da terra ao posseante, acabando com o despejo e a instituição do grilo, empreendendo, enfim, modificações radicais na estrutura agrária.


Fonte: www.marxists.org


                            UNISINOS  NUCLEO ESTUDOS TEUTO BRASILEIROS


O Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros


 


Martin N. Dreher*


 


         O Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros é parte integrante do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos e foi criado como suporte para a linha de pesquisa Colonização e Imigração na América Latina. Nele reúnem-se, mormente, publicações em língua alemã relacionadas com a imigração germânica no Brasil. Assim, fazem parte de seu acervo a literatura alemã, importada e lida nas colônias e cidades, jornais, almanaques (Kalender), material didático, microfilmes de livros de registro de paróquias formadas por imigrantes, microfilmes de jornais, acervos como o da Sociedade União Popular. Salas de leitura e de consulta estão à disposição de pesquisadores.


         A partir do acervo reunido e que continua a receber doações puderam ser elaboradas diversas teses e dissertações, nas quais pôde ser recuperada parte considerável da memória teuto-riograndense.


 


Doações e consultas:


Continuamos aceitando doações de livros e periódicos!


Contatos:


Prof. Dr. Martin Norberto Dreher (Coordenador)


E-mail: martin@bage.unisinos.br


Telefone: 51 591 1147   ou    51  591 1118


Fax: 51 590 8393


Endereço: Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros


              Programa de Pós-Graduação em História – UNISINOS


              Av. Unisinos, 950


                 93022-000 – SÃO LEOPOLDO – RS


Horário de atendimento no Acervo:


- segunda, quarta e quinta-feira: 8h às 12h, 13h às 17h


http://www2.brasilalemanha.com.br/livro_nucleo.htm 


 


                                                                       


 


 


BIBLIOGRAFIA SOBRE IMIGRAÇÃO ALEMÃ


 


Unisinos promove lançamento de livro sobre imigração alemã na São Leopoldo



A organização da São Leopoldo Fest 2008 confirmou para a noite desta sexta-feira, 25 de julho, o lançamento  do livro “Imigração Alemã no Rio Grande do Sul: Recortes”, da editora Oikos/Unisinos. A obra de 114 páginas, capa dura, toda colorida, é de autoria dos professores Irmgart Grützmann, Martin Dreher e Jorge Feldens, integrantes do Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros da Unisinos, de São Leopoldo. No tamanho ampliado de 30 x 42 cm, o livro reproduz as cinco dezenas de painéis que a equipe de doutores em História preparou para exposição no Memorial do Rio Grande do Sul por ocasião dos 180 Anos da Imigração Alemã em 2004.


Enriquecido com numerosos textos inéditos, o livro é fundamental para as pessoas que se interessam pela história da imigração alemã no Brasil. Os painéis temáticos, a partir de diversas linguagens – entre elas uma vasta documentação fotográfica e publicitária de tradicionais produtos da indústria teuto-brasileira – mostram causas e conseqüências da emigração para o Brasil, os diversos destinos, a participação política, o movimento Mucker, as produções culturais, as redes de comércio, as formas de construção e habitação, o trabalho feminino, comemorações, sociedades, indústrias e manufaturas.


Central de Notícias BrasilAlemanha


http://www.jornalocaminho.com.br/ultima-hora_noticia.php?noticiaId=2779


















































Famillientreffen: Encontro de Famílias
A noiva de preto passa a ser apenas um detalhe da rica cultura pomerana. Comidas típicas, mais mistérios sobre o casamento, mandingas, tradições, história, verdades e mentiras sobre esse povo reunido num grande encontro de famílias.



Em busca de um lugar ao Sol: estratégias políticas – Imigração Alemã (Rio Grande do Sul – Século XIX)
As dimensões inéditas sobre as estruturas políticas e sócio-econômicas do século XIX. Verifica como imigrantes alemães e descendentes buscaram participar da política no Rio Grande do Sul.



De Pés e a Ferros - Primeiro volume da coleção inédita Memórias da Figueira
A história da colonização alemã em Torres, litoral norte do Rio Grande do Sul. As dificuldades, lutas e conquistas



A Valsa da Medusa - romance
Na nova colônia de Santa Cruz, Tristan conhece Pauline, casada e mãe de quatro filhos, mas, segundo profecia, a ele destinada. A autora tece as muitas voltas do destino, que vai terminar por aproximar o brummer Tristan e a conscienciosa Frau Pauline.



A Saga dos Alemães - bilíngue
Do Hunsrück para Santa Maria do Mundo Novo. Três volumes de luxuosa apresentação gráfica e mais um CD com imagens e informações inéditas colhidas junto à comunidade e locais históricos. Uma das histórias



Leituras e Interpretações da Imigração na América Latina - CD ROM
No contexto da colonização e imigração na América Latina, conferências e comunicações sobre os mais variados assuntos, sempre relacionados à imigração.



Imigração Alemã no Rio Grande do Sul - Recortes
Painéis temáticos, compostos a partir de diversas linguagens, englobando a fotografia e a publicidade, mostram as causas da emigração para o Brasil, os diversos destinos e atividades dos imigrantes no sul do país



As Famílias Glaab e Henz no Brasil e suas origens
Preservar a memória das famílias, na nossa visão, é algo sagrado. Queremos preservar aquele mínimo de nossa história, para podermos dizer às gerações futuras: “eis a nossa história, eis as nossas



Campos Múltiplos: identidade, cultura e história. Festschrift em homenagem ao Prof. Arthur Blasio Rambo
Um tributo à atuação do prof. Rambo, conhecido no âmbito acadêmico gaúcho e brasileiro, dando continuidade à sua pesquisa



O Campanário do Tempo - Entre a Selva e o Sonho
O primeiro volume da trilogia de Liti Belinha relata a saga de famílias alemãs que foram para o fundo da selva e lá tiveram que sobreviver com apenas uma arma: o sonho de uma vida melhor



O Campanário do Tempo - Casa de Órfãos
"Casa de Órfãos”, 2º volume da trilogia “O Campanário do Tempo”, narra, em forma de romance histórico, a trajetória da imigração alemã no RS. Os primeiros imigrantes enfrentam as dificuldades, relacionam-se com as pessoas da terra e formam novos



Os Alemães e a Borboleta
Um resgate da história e estórias dos valentes imigrantes, que deixaram sua Alemanha em busca de novas oportunidades de vida, embarcaram em frágeis veleiros "por mares nunca dantes navegados", desde o Porto de Hamburgo até sua nova Pátria



SAGA - Retrato das colônias alemãs no Brasil - bilíngue
Paisagens e modo de vida dos imigrantes alemães e descendentes no Brasil, Saga mostra a expressão alemã da multifacetada cultura brasileira



Wilhelm Pommer: memória e trajetória de um pastor imigrante no sul do Brasil
O objetivo do livro é preservar as memórias de Wilhelm Pommer, figura fundamental no processo histórico das comunidades da IECLB às quais prestou serviços.



Theatro Municipal – Famílias Gautier e Goñi
Uma vida de sonhos e magia. A obra “Theatro Municipal – Famílias Gautier e Goñi” aborda a criação e aspectos do Teatro Municipal João Pessoa de Rosário do Sul, cidade natal do autor, e genealogia das famílias.


 


Como os alemães lançaram raízes no Brasil | Alemanha | Deutsche ...


www.dw-world.de/dw/article/0,,1158846,00.html - Em cacheSimilares


13 abr. 2004 – Uma entrevista com o professor Lauro Müller. DW-WORLD. ... explica o historiador Telmo Lauro Müller, autor de mais de 20 livros sobre a ...


 


 


O ensinar e o aprender português nas escolas da imigração alemã no ...


www.unisinos.br/revistas/index.php/calidoscopio/.../543 - Em cache


de MLL Bredemeier - 2011 - Artigos relacionados
O ensinar e o aprender português nas escolas da imigração alemã no Rio Grande do Sul. ... O referencial teórico do estudo situa-se, por um lado, ...


[PDF]


O ensinar e o aprender português nas escolas da imigração alemã no ...


www.unisinos.br/revistas/index.php/calidoscopio/article/download/.../156


Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de MLL Bredemeier - 2011 -
Artigos relacionados
17 mar. 2011 – 2011 by Unisinos - doi: 10.4013/cld.2011.91.07. Maria Luísa ...


Como entender a cultura alemã no Rio Grande do Sul? | Revista IHU ...


www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content...id...


26 nov. 2007 – Os estudos da historiografia alemã serão abordados por ...


[PDF]


Notas de Pesquisa A religião de Jacobina Mentz Maurer - Unisinos


www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/images/.../np01_dreher.pdfSimilares


Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
imigração alemã para o sul do Brasil até 1859, trouxe quase ao final de seu ...


Exibir mais resultados de unisinos.br


Unisinos promove lançamento de livro sobre imigração alemã


www.jornalocaminho.com.br/ultima-hora_noticia.php?... - Em cache


Unisinos promove lançamento de livro sobre imigração alemã na São Leopoldo ... do Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros da Unisinos, de São Leopoldo. ...


Imigração Alemã: Unisinos vai conhecer a história de Walachai do ...


imigracaoalemanosuldobrasil.blogspot.com/.../unisinos-vai... - Em cache


8 dez. 2007 – Imigração Alemã. Blog criado para divulgação do resgate e da ... Beno Wendling na Unisinos. Walachai é uma pequena comunidade fundada em 1829 .... estudo história, autor dos livros História da Imigração Alemã no Sul do ...


BRASIL ALEMANHA ONLINE


www2.brasilalemanha.com.br/180_set.htm - Em cache


Festejos dos 180 Anos da Imigração Alemã no Brasil - Participe! ... E-mail: eventos@unisinos.br ou pelo Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros, PPG História, ...


 


Uma Alemã Chamada Ana (O melhor romance evagélico do Brasil) - R ...


produto.mercadolivre.com.br/MLB-174015903-uma-alem... - Em cache


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


Comprar e vender Uma Alemã Chamada Ana (O melhor romance evagélico do Brasil) - R$ 10.00. Livros Literatura Nacional Romance e Drama Outros ...


 


Imigração alemã no Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre


pt.wikipedia.org/wiki/Imigração_alemã_no_Brasil - Em cacheSimilares


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


A imigração alemã no Brasil foi o movimento migratório ocorrido nos ..... Azuis (em português) Romance Histórico da Imigração Alemã na Grande Florianópolis. ...


 


[PDF]


A imagem européia/alemã do Brasil: os viajantes, os escritores, o ...


www.letras.ufrj.br/liedh/media/docs/art_valb1.pdfSimilares


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
daquele século e início do século XIX, vários alemães vêm ao Brasil nas ..... Outro romance em que aparece o Brasil, é Martin Salander (1896) de ...


 


A Aculturação dos Alemães no Brasil - EMILIO WILLEMS - Sebo ...


www.livrariaphylos.com.br/?74,3959...alemaes-no-brasil... - Em cache


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


Compre A Aculturação dos Alemães no Brasil - EMILIO WILLEMS na Livraria Phylos e pague em até 6x no cartão.


 


LIVRO: Fotógrafos Alemães no Brasil do Século XIX


www.livrus.com.br/site/perfil_livro.php?id_livro=24458 - Em cache


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


Fotógrafos Alemães no Brasil do Século XIX. AUTOR(A): PEDRO KARP VASQUEZ ... LITERATURA ESTRANGEIRA-ROMANCES, LITERATURA FANTáSTICA, LIVROS DIDáTICOS ...


 


Imigração Alemã no Brasil - InfoEscola


www.infoescola.com › História - Em cacheSimilares


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


Artigo sobre a imigração alemã no Brasil, como os alemães ajudaram a povoar o país, quais as influências que tiveram, em que regiões os alemães se fixaram, ...


 


PDF]


A Escola dos Imigrantes Alemães no Brasil no período 1824 – 1938 ...


www.ffp.uerj.br/arquivos/dedu/monografias/RBS.2008.pdf


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Ver em HTML
26 out. 2007 – A Imigração alemã no Brasil. 2º Capítulo: . ...... Publica obras como o Patuá um romance regionalista. No Rio de Janeiro funda o ...


 


A ESCOLA ALEMÃ DOS IMIGRANTES E A LÍNGUA ... - Brasil – Alemanha


www2.brasilalemanha.com.br/jose_luis.htm - Em cacheSimilares


Você marcou isto com +1 publicamente. Desfazer


A colonização alemã no Brasil continua, a partir destes marcos, .... Publicou, ainda, inúmeras outras obras como O Patuá, um romance regionalista. ...


 


 


Presença alemã no Brasil


www2.brasilalemanha.com.br/180_presenca.htm - Em cacheSimilares


c) de 1933 a 1945 (Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros-3, Unisinos,) ... l) FECAB – Federação dos Centros de Cultura Alemã no Brasil (Globig) ...


VII Seminário Nacional de Pesquisadores da História das


www2.brasilalemanha.com.br/seminario_hist.htm - Em cache


Centro Cultural 25 de Julho de Teutônia. Centro de Apoio a Pesquisas e ...


Bibliografia - SiteRS - Capítulo do Texto


www.siters.com.br/Obra/Capitulo.asp?IdCapitulo=25... - Em cache


Colóquio de Estudos teuto-brasileiros. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1980, p. 495-501 . ... In: Estudos Leopoldenses, UNISINOS, n. 4, 1967, p. 45-79. ..... Porto Alegre: Tipografia do Centro, 1924. HUNSCHE, Carlos Henrique. ...


Unisinos promove lançamento de livro sobre ... - Jornal O Caminho


www.jornalocaminho.com.br/ultima-hora_noticia.php?... - Em cache


Unisinos promove lançamento de livro sobre imigração alemã na São Leopoldo ... do Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros da Unisinos, de São Leopoldo. ... Central de Notícias BrasilAlemanha. Imprima; Envie a um amigo; Comente esta matéria ...


O Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros


www2.brasilalemanha.com.br/livro_nucleo.htm - Em cache


O Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros é parte integrante do Programa de ... E- mail: martin@bage.unisinos.br. Telefone: 51 591 1147 ou 51 591 1118 ...


 


 


PERSONALIDADES QUE SE DESTACARAM POR LIVROS       DE FICÇÃO ESCRITOS SOBRE A IMIGRAÇÃO ALEMÃ E IMIGRANTES


 


RUY GERMANO NEDEL: Autor de Esta Terra Teve dono. Porto Alegre: Ed. Tchê e Te Arranca, Alemão Batata. Porto Alegre: Ed. Tchê.


 


RUY NEDEL -  Deputado Federal PMDB/RS


1.     


2.      Ruy Germano Nedel
Nascimento: 5/6/1937
Naturalidade: Cerro Largo, RS
Profissões: Médico
Filiação: José Aloysio Nedel e Erna Josephina Scherf Nedel


Mandatos (na Câmara dos Deputados):


Deputado Federal (Constituinte), 1987-1991, RS, PMDB. Dt. Posse: 01/02/1987.


Filiações Partidárias:


MDB, 1974-1979; PMDB, 1980-1990; PSDB, 1990-.


Atividades Partidárias:


Vice-Líder, PMDB, 1990.


Atividades Parlamentares:


ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE:
Subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias, da Comissão da Ordem Social: Titular, 1987; Subcomissão de Garantia da Constituição, Reformas e Emendas, da Comissão da Organização Eleitoral, Partidária e Garantia das Instituições: Suplente, 1987.


Atividades Profissionais e Cargos Públicos:


Servidor Público Estadual da Secretaria de Administração do Estado do Rio Grande do Sul, 1960-1966; Serventuário da Justiça do Trabalho, TRT, Porto Alegre, RS, 1967-1970; Superintendente do Inamps Porto Alegre, RS, 1985-1986.


Estudos e Cursos Diversos:


Medicina, Fac. Fed. de Ciências Médicas, Porto Alegre, 1961-1966.


Missões Oficiais:


Representante do Grupo Brasileiro do Parlamento Latino-Americano na Assembléia Extraordinária do Parlamento Latino-Americano, Panamá, 1988.








 


 


 

Voltar